Não caias
em tentação

André está suspenso no ar. Tem o arnês à volta da cintura que está preso à corda que por sua vez está presa lá em cima. A 75 metros do chão. Tem um capacete na cabeça e os pés de gato nos pés. Olha lá para cima e pede às pernas, aos antebraços e às mãos que icem o corpo. Já fez isto antes, mas não assim. Isto não é escalada, não tem as mãos brancas do magnésio, não as prende ou entala em fissuras. Não há uma rocha escarpada, nem um abismo.

— Aconteceu-me quando era puto. Acordei de um pesadelo com a sensação de cair de um prédio.

Nunca ali esteve, colado a um mamarracho envidraçado, a confiar que o poder de sucção das ventosas o vai manter colado aos vidros de uma das torres das Amoreiras, em Lisboa. Também não sabe se força bruta e o poder de explosão chegam para ultrapassar os três metros finais, em extraprumo, onde o plano de inclinação de uma das mais altas árvores da selva de betão está para lá da verticalidade.

Janeiro de 2003, estamos no pico do inverno. Muito tem chovido, choveu bastante no dia anterior, mas não hoje e os vidros estão secos e André Neres será o mais rápido a escalar um prédio para a televisão e o seu espetáculo de câmaras, anúncios, apresentadores e sorrisos forçados.

É um miúdo de 17 anos que faz escalada desportiva há dois. Vive com os pais em Caneças, acaba de ganhar um carro e ainda nem carta de condução tem.

Apesar de tudo, não é ali que gostava de estar.

André Neres tem 32 anos e já foi campeão nacional de escalada por 16 vezes, em diferentes categorias
André Neres tem 32 anos e já foi campeão nacional de escalada por 16 vezes, em diferentes categorias

I.A vertigem

2018. Manhã fria de janeiro. André Neres tem 32 anos e 17 de escalada. Partilha uma vida com Márcia e ambos são pais de duas filhas. Sacode o magnésio das mãos, com a parede que acabou de escalar na visão periférica, com a mochila preta no chão onde se veem mosquetões, cordas e cordelete. Estamos num topo de uma falésia em Sagres, no Algarve. Sopram ventos de promontório, as nuvens destapam o sol a custo, está frio e ele tem apenas uma t-shirt vestida. Ri-se, confortado pela energia que o corpo acumulou.

É aqui que ele gosta de estar. E é isto que ele gosta de fazer.

Momentos antes, André prendera uma corda à presa colocada no topo da falésia, dera um nó com essa corda no arnês e descera. Lá em baixo, rochas escarpadas, pedras soltas, ondas a quebrarem furiosamente perto do ponto de partida. Um cenário dantesco, mas para ele um penhasco é apenas isso, um penhasco.

André Neres tem 16 títulos de campeão nacional de escalada e foi o primeiro português a superar uma via 9a, um dos níveis mais difíceis deste desporto - aliás, só há três níveis acima deste. Portanto, este é apenas um dia normal. Desce despreocupado, pés colados à parede, as mãos a inspecionar fissuras e rachas. O seu elevador é uma corda que nem três centímetros de espessura tem. Está a ver as presas na parede por onde pode escalar, a imaginar o corpo e os movimentos, a estudar, porque, “sem qualquer tipo de planeamento”, estará mais tempo na parede, vai-se cansar mais rápido e vai “escalar menos”.

— Não sou o gajo mais campeão do mundo em situações expostas. Escalo, vocês olham e podem achar impressionante, mas, para quem escala muito, isto não é nada do outro mundo.

André está a fazer a coisa que faz “há mais tempo na vida sem ser só estar vivo” e demora tanto tempo a descer como a subir. São 15 ou 16 minutos. É uma ascensão rápida, com movimentos explosivos e ao mesmo tempo tão fluidos, como se gatinhasse no chão. Este é o seu mundo.

Acabou de trepar um penhasco sobre o mar com perto de 45 metros de altura usando uma via [assim se chama ao caminho que se escolhe a escalar] que alguém batizou de “Não Caias em Tentação”. O nome tem tanto de irónico como de mau gosto para o jornalista, o fotógrafo e os dois repórteres de imagem que o viram precipitar-se sobre o abismo.

— Tenho medo como qualquer outra pessoa. Mas mandas uma queda e, à partida, não te vai acontecer nada. Ficas pendurado na corda, não é nada de especial. Quanto deitas a cabeça na almofada e imaginas os passos na via, there is no turning back. E quando estás fanático, já foste. Já sonhei várias vezes com escalada, são 17 anos, é tão normal que nem pensas.

Nem sempre foi assim. Tempos houve em que André adormecia e a escalada não lhe aparecia nos sonhos. Esse tempo está entre esta falésia em Sagres e aquela torre das Amoreiras.

II.O escape dos carros

André cumprimenta a mãe, o pai, o irmão e gente mais. Larga as ventosas, está feito o desafio, ganhou, pode levar o carro novo para casa. Há de tirar a carta, conduzir e comprar um carro melhor, porque sempre gostou de carros, dos motores e das especificações que enumera de cor. Foi por isso que decidiu procurar um emprego, o “único emprego que teve na vida”.

Acabou no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, e entrou num turno noturno.

Passou a acordar à noite e a adormecer de dia, baralhou os horários quotidianos e biológicos por um salário de 800 euros que geriu até comprar o dito carro. A esse seguiu-se outro e os que vieram depois, sucessores na hierarquia de um gosto automóvel que invadia André enquanto ele “saía da adolescência e entrava na vida adulta”. Os 30 podem ser os novos 20, como os 40 são os novos 30. Mas os 20 não são iguais a nada: são uma novidade.

E André Neres entrou neles a andar, a conduzir, a sair à noite, a “ter dinheiro no bolso”, a divertir-se com os amigos e a “fazer coisas estúpidas”. E a escalar pouco.

“Desliguei-me um bocado.”

Na lista de prioridades, a escalada desceu até tornar-se um passatempo esporádico que cumpria uma vez por mês, ou a cada dois meses. Foi “conhecer outra vida” e viver desligado e desprendido. “Muitas vezes não fazemos as coisas só porque as adoramos ou pela paixão”.

Foi, provavelmente, a única vez que isso lhe aconteceu.

Oriundo de Caneças, concelho de Odivelas, hoje em dia escala mais vezes no Cabo Espichel ou mais a sul, em Sagres
Oriundo de Caneças, concelho de Odivelas, hoje em dia escala mais vezes no Cabo Espichel ou mais a sul, em Sagres

III.O mergulho

— Tens a mania que és fininho e campeão. Tens que vir, no outro dia levámos um amigo nosso que é muito forte e não se safou.

Tinha acabado de fazer 15 anos quando dois amigos de infância, que moravam perto da vidreira dos pais, em Caneças, o picaram. Ele era magrinho, puto atlético e ágil, eles eram “assim meio gordinhos” e quando disseram que faziam escalada, André não acreditou. Depois, percebeu que eles tinham sido levados pelo dono da loja que vendia material de caça submarina em Odivelas que ele conhecia. Nessa altura, André era um “palito” que fazia mergulho com o tio materno em Sesimbra, a figura paternal quando a relação com o pai era distante.

Um dia, os amigos “meio gordinhos” levaram o “fininho” André a experimentar a escalada. Adorou. Sentiu o instinto de trepar às árvores que nasce com os miúdos. Disseram-lhe que tinha jeito ao verem como, logo na estreia, escalou mais do que os dois amigos que “já escalavam há dois ou três meses”. Descobriu rapidamente que tinha tudo: instinto, mobilidade, consciência do centro de gravidade, “força de dedos”, “coordenação motora” e uma boa relação peso-potência.

E André, assumidamente uma “pessoa de ter pancas”, teve outra.

Começou a ir mais vezes. A praticar, a aprender com o senhor Mário, já reformado e conhecedor de “praticamente todos os escaladores fortes em Portugal”, que pegou nele e ao fim de seis meses convenceu um miúdo “super assustado”, e sem a menor ideia do que era competir, a enfrentar a sua primeira prova.

— Tu vais ganhar aquilo.

André foi e ganhou. No ano seguinte, venceu de novo. No ano a seguir a esse, também, e de muletas por ter partido o pé no único acidente que teve a escalar até hoje: caiu do topo de uma via, tinha uma parede atrás e bateu com o pé no chão. Partiu-o em três sítios e ficou “um mês e tal de gesso”.

A evolução foi simbolicamente vertiginosa como as paredes que escala. Do nada, chegou a encadear uma 8a, ou seja, foi do chão ao topo de uma via de grau 20 de dificuldade (o máximo é 29) sem repousar.

Naturalmente, a panca de André Neres evoluiu para algo maior.

Tornou-se “um fanático” de escalada , mais do que já fora com o mergulho, o skate, o karaté e a ginástica, que praticava enquanto a avó tomava conta dele e fazia limpezas num pavilhão, em Odivelas. O talento inato que tinha, a capacidade de superação, o querer “exceder constantemente os limites” ajudaram, sobretudo porque se misturaram na pessoa “extremamente competitiva” que diz ser.

— Mas, a certa altura, comecei a chegar a um limite e, para crescer, tinha de treinar. Só que eu não treinava muito. Escalava muito, mas nunca treinei disciplinadamente durante muito tempo.

Treinar é sofrer.

Findos esses três anos sempre a ganhar e a ser o melhor, André Neres atingiu o plateau. Estagnou.

Veio a escalada às Amoreiras, veio o emprego no aeroporto e veio um salário. E vieram os carros, os amigos, as saídas à noite e a diversão. E desapareceu o prazer. Passou a escalar apenas pelo reconhecimento, porque as pessoas olhavam para o André e o André era o escalador.

— Tinha essa necessidade. Se calhar como não tinha sido reconhecido no passado. Talvez tenha sido por isso que parei um bocado de escalar.

Era o ego.

André faz escalada há 17 anos, a coisa que faz "há mais tempo na vida sem ser só estar vivo"
André faz escalada há 17 anos, a coisa que faz "há mais tempo na vida sem ser só estar vivo"

IV.Peixe Porco

André voltaria a escalar a sério em 2007, quatro anos depois da subida às Amoreiras. Regressou com “uma maturidade completamente diferente”, mais velho, com saudades da natureza, das paisagens, do ar livre, do exercício físico, do auto-desafio constante - e de ultrapassar os limites.

As cotações

Existem 11 tipos de cotações para avaliar o grau de dificuldade para escalar uma via. Em Portugal, a mais comum e utilizada é a cotação francesa, que tem 32 níveis numerados de 1 a 9, sendo o primeiro tido como “muito fácil”. A cada número pode ser atribuída uma letra, entre “a”, “b” e “c”, ou um “+”, para acentuar a dificuldade.

Voltou a ganhar, a ser campeão cá e também a ter resultados lá fora - em 2009, terminou a taça do Mundo em 36.º. Mas, acima de tudo, voltou a querer escalar por escalar, como está a fazer aqui em Sagres, levando-nos por um desfiladeiro sinuoso que nos obriga andar de pés e mãos no chão para não cairmos. São 10 minutos a descer até ao ponto em que se avista o “Peixe Porco” - a única via 9a em Portugal.

Neste número e nesta letra cabem uma parede mais inclinada, mais escura e com ondas maiores e mais estrondosas lá em baixo, na base que tem no mar. Só o caminho que André tem de fazer até lhe chegar perto já é assustador: escarpado e pouco aderente, por uma parede da falésia que está colada à água e ele agarrado a uma corda. Com ele vai José Ferreira, o grande amigo grande que o ajuda e acompanha. José tem 35 anos, 1,85 metros de altura, é forte e pesado. Caraterísticas “castradoras”, desabafa. “Com as mesmas mãos e menos 15 quilos, escalava o triplo. Com o mesmo peso e as mãos mais pequenas, ainda mais”.

É ele que fica na base de rocha. Choca punhos com André, segura a corda e vê-o a apalpar as marcas de magnésio na via, resquícios de travessias passadas. Vê-lo cá de cima, a 30 metros, provoca vertigem e esta é provavelmente a escalada mais difícil e assustadora de Portugal - mas não é nada de mais para André. Não se veem hesitações, medos, dúvidas, apenas certezas e um desembaraço notável, como um homem-aranha de carne e osso, pé ante pé, mão a mão.

O plateau ficou lá atrás. Os limites foram ultrapassados.

V.O resgate na montanha

Os pais não gostaram da ideia no início. Acharam um “bocado perigoso” ver o filho aventurar-se contra paredes e montanhas, a gastar o tempo a contar quilómetros e vias e o dinheiro em material. Só se conformaram com a ideia quando chegaram os primeiros prémios. Aí perceberam que a escalada seria a vida de André.

Mas a namorada percebeu isto desde o início.

Márcia e André vivem juntos desde 2008, são pais de Lorena e de Vitória. As preocupações dela foram sempre relativas, diz André, se exceptuarmos, claro, aquela vez.

Um dia, André, José e alguns amigos - Leopoldo Faria, brasileiro que reside em Portugal e o primeiro a domar o “Peixe Porco”, era um deles - foram até Chamonix, nos Alpes Franceses. Mal equipados. Mal preparados. E com um mau plano. Iam escalar uma via de 800 metros descurando o mau tempo que se estava a pôr contra eles.

Arriscaram, André à frente, o melhor escalador a liderar a escalada a uma “coisa monstruosa”. A ideia era começar às 6 horas e acabar à hora de almoço, que é quando a neve aquece e desaconselha aventuras pelo risco de avalanches.

Só que...

— Estávamos a chegar ao fim do dia e nem a meio tínhamos chegado.

O currículo

Desde 2001, ano em que começou a competir, André Neres foi campeão nacional por 16 vezes e conquistou duas Taças de Portugal, entre as categorias de Boulder e Dificuldade, ambas realizadas em parede artificial. Em Boulder escala-se sem corda, com colchões no chão e numa parede até aos quatro metros de altura, mais focado em força, técnica e poucos movimentos. Em Dificuldade, a estrutura vai até aos 15 ou 20 metros, o escalador tem corda e o foco está na resistência.

Em 2003, participou pela primeira vez numa prova internacional, acabando no 61º lugar do Campeonato do Mundo em Chamonix, França. Competiu em quatro Taças do Mundo, tendo um 36º lugar em Barcelona (2009) como o melhor resultado.

Decidiram parar, dormir “no meio de uma reprisa”, a uns 400 ou 500 metros do chão, com uma tenda e uma massa instantânea para duas pessoas que tinham de chegar para seis corpos e seis bocas. O dia seguinte seria para alcançar o cume, mas a neve, o frio, a fome, o cansaço e o temor que se alastrava a todos fê-los escolherem a prudência quando se cruzaram com um grupo de alpinistas espanhóis.

— Olhava para cima e via uma parede inclinada, a parte final era uma agulha, e pensava: 'A escalada dura está ali e nós já estamos assim'.

André pensou num resgate mas ficou preocupado com quem não tinha seguro. Ser salvo numa montanha pode dar numa despesa entre os 4 e os 12 mil euros.

Pediu ajuda aos espanhóis. Deram-lhe o contacto e informaram que em França os resgates eram sem custos - mas não sem justificações. Perante as insistentes perguntas vindas do outro lado da chamada, André exagerou na voz fraca, nos relatos de fome, na contagem da água e da comida e garantiu deixar na montanha todo o equipamento de milhares de euros que tinham com eles.

Veio um helicóptero, foram resgatados à vez e as mochilas que se resignaram a deixar no alto da montanha acabariam por seguir viagem também. Era um teste e André tinha passado.

Fora estas desventuras, Márcia e as filhas tiveram tempo para se adaptarem. Agora, André passa a maior parte dos dias a 45 minutos e 10 euros de gasóleo de distância, no Cabo Espichel, com todas as vias e paredes que, pela proximidade, lhe “têm salvado a vida, literalmente”.

Com pó de magnésio nas mãos, pés de gato nos pés, muita força e preso a uma corda

A família já viveu pior, quando ele passava três ou quatro meses fora, por ano, nas vias da Catalunha à cata de patrocinadores, trabalhos e dinheiro.

— A batalhar. Sempre foi assim, um bocado na luta.

Hoje, os quatro - André, Márcia, Lorena e Vitória - vão juntos na carrinha transformada de André até à Catalunha, ou ao sul de França, com amigos. As filhas “habituaram-se a viajar e a acordarem no meio do mato, e a irem brincar o dia todo para a floresta” enquanto o pai está a escalar.

Lorena tem “montes de jeito” para a escalada e até já compete. É a segunda escaladora lá em casa onde, todos os meses, ele tem de pôr 1.000 euros para “as coisas correrem bem” e viverem “em condições”. Porque apesar de estar melhor, não está tudo bem.

André não tem um emprego fixo, não tem poupanças - “gasto tudo o que ganho” -, não tem patrocínios financeiros (teve apenas um, quando ainda existia a TMN), apenas apoios que lhe fornecem o material. E se tem dinheiro para colocar em casa e gastar o excedente na escalada, é porque se mexe.

Trabalha, por vezes, para a UEFA, montando painéis LED nos estádios que acolhem jogos da Liga dos Campeões. Trabalha na Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP), fazendo vias em instalações e muros, organizando também algumas competições, fazendo “quase de Relações Públicas”. E em troca de dinheiro e apoios, já trabalhou para a Top30, a empresa de escalada de um amigo e vezes houve em que esse amigo nem lhe cobrava a ajuda.

Assim, consegue por ano ganhar entre os 10 e os 20 mil euros - gasta à volta dos 8 mil com a escalada.

— No meio de tudo isso, ainda sou pai.

E ainda tem um sonho.

André Neres e José Ferreira são bons amigos e escalam juntos muitas vezes. Além da escala, José ainda pratica highline
André Neres e José Ferreira são bons amigos e escalam juntos muitas vezes. Além da escala, José ainda pratica highline

VI.O sonho suspenso

A ordem normal e ordeira das coisas seria ver André Neres como um dos candidatos a representar o país em Tóquio, nos Jogos Olímpicos que o Japão organizará, em 2020.

Será a estreia da escalada como modalidade olímpica, mas poderá não ser a estreia de Portugal, por culpa de um problema que nada tem a ver com os atletas.

Porque existem duas entidades que lutam pela tutela da escalada: a Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP) e a Federação Portuguesa de Montanhismo e Escalada (FPME). A primeira é a única que tem estatuto de utilidade pública e, logo, recebe fundos do Estado; a segunda é a única reconhecida pela Federação Internacional de Desportos de Escalada (IFSC, na sigla inglesa), entidade que rege a modalidade e a reconhece para provas lá fora.

No meio, sem apoios do Comité Olímpico de Portugal (COP) e sem saberem como chegarão aos Jogos, estão os escaladores. E tem estado André.

Ele dá a cara pela FCMP, o que lhe “tem roubado muita energia”. Fala em “nós” e “eles”, da entidade que tem cerca de 12 anos e surgiu de uma cisão da FCMP.

O pó de magnésio que André vai buscar ao saco serve para secar as mãos, livrá-las do suor e ganhar aderência à rocha

Já teve o telefone encostado ao ouvido por “horas a fio”. Já intermediou encontros entre os dois presidentes. Já se reuniu com João Paulo Rebelo, secretário de Estado, e adjuntos do seu gabinete, conversou com gente do Instituto Português do Desporto e da Juventude. Até reuniões com o presidente da federação internacional já teve.

E nada aconteceu.

— Sou atleta, escalador de origem, e estou a tentar resolver um problema que não é da minha competência. Há aqui jogos e interesses, é um mundo mais político que me transcende.

André está fora de pé e a tentar agarrar-se a coisas para as quais não tem mãos. Impasses entre quem manda e não quer ceder, mentalidades novas e antigas, federações a quererem tutelar a mesma escalada, competições a serem organizadas paralelamente, duas federações a não cumprirem requisitos do Comité Olímpico e uma secretaria de Estado a intermediar um impasse que se tem prolongado.

É uma confusão que, de momento, diz respeito a quatro entidades, que o Expresso contactou. O COP não apoia qualquer federação, por nenhuma cumprir os requisitos, mas “pronunciou-se favoravelmente à atribuição” do estatuto de utilidade pública à FPME, mesmo que haja uma providência cautelar interposta pela FCMP para a impedir de integrar o comité, que tentou “que as partes se entendessem”.

Qualquer escalador tem as mãos, os antebraços e o trem superior do corpo muito desenvolvidos por culpa de movimentos como este

Também a Secretaria de Estado da Juventude e do Desporto “tudo tem feito para sensibilizar os intervenientes” nesta miscelânea, onde faz por desempenhar “funções de moderadora” para o “desenvolvimento saudável da modalidade”. Mas esses intervenientes, nas suas respostas, vincam o fosso que os separa.

A FCMP revela que fez uma proposta para a “inclusão de elementos” da outra federação na sua estrutura, que foi recusada e que “está a decorrer um processo de anulação do nome” da FPME que, por sua vez, “o conteúdo desconhece”. Essa federação garante que “a representação da escalada em Portugal” lhe pertence. Que, sendo a única filiada na IFSC, “só os seus atletas podem participar nas provas internacionais de apuramento para os Jogos Olímpicos”. E que já solicitou o estatuto de entidade pública desportiva (em outubro), estando “sempre disponível para qualquer negociação” que assegure “a autonomia e independência” da escalada e montanhismo “em relação a outras modalidades”.

Tudo isto é um problema dos grandes para André Neres e todos os escaladores. Não sabem, porque nem o Comité Olímpico Internacional sabe, como será feita a qualificação para Tóquio. Desconhecem se Portugal poderá qualificar alguém. E continuam a escalar sem apoios do Comité Olímpico português.

O que André não quer são duas coisas: passar pelo que passou e ver outros a passarem pelo mesmo: ir a competições no estrangeiro sem treinador, preparador físico, e sem alguém informado do regulamento, do número de atleta, das horas do briefing, da hora a que tem de comparecer no isolamento ou da hora a que começa a competir.

— Não tinha menos um dedo, senti que não era menos dotado do que os atletas que ganhavam os Campeonatos do Mundo. Só que eles dedicavam-se de uma forma que eu não conseguia. Fui sozinho a 90% das competições. É extremamente difícil estar focado apenas em escalar. Não é impossível, mas é muito, muito, muito difícil.

E, mesmo que tudo se resolvesse, continuaria a faltar o projeto de seleção, o selecionador, os estágios e os apoios que André, e muitos outros, não tiveram. Seria “triste” o país não ter um escalador em Tóquio, embora, “honestamente”, ele já não pense muito nisso.

— Quando és atleta e vais sozinho, tens de saber e fazer tudo. E, na maior parte das vezes, pagaste a estadia e a viagem do teu próprio bolso, ou estás sem dinheiro e tens de pedir para dormir não sei onde.Não conseguia ter feito melhor do que fiz e não foi por falta de vontade.

Nem foi por falta de mãos.

As mãos O mais visível, usado e versátil instrumento de trabalho que André tem
Os pés de gato A equipar-se antes de começar a escalar numa manhã de inverno, em Sagres
A parede Parece gatinhar na vertigem nesta parede que servia só de aquecimento
O topo Nem dez minutos demorou até chegar ao topo desta via
A vertigem Esta sim, já era uma parede e uma via que o fizeram suar: a "Não Caias em Tentação"
O desafio A ascensão à via "Peixe Porco" foi mais morosa e cautelosa, naturalmente. É a única via classificada como 9a em Portugal
9a E, claro, mais vertiginosa e assustadora
O cume Chegato ao topo da "Peixe Porco", o sinal de confirmação

VII.As mãos que tudo fazem

— A primeira coisa a que tiras a pinta é a roupa.

André diz que consegue topar um escalador pelo que veste. Mas há uma forma mais objetiva e provavelmente infalível de identificar um tipo que ganha a vida a subir paredes: os dedos, as mãos e os antebraços. Ou os dedos espessos e fortes, as mãos massudas e a pele áspera e profunda que as reveste, os antebraços anormalmente musculados. Basta um aperto de mão para sentirmos.

Há mais.

— As costas até são um bocado curvadas por causa do excesso de movimentos a fechar no trem superior, que cria algumas descompensações musculares.

Quando André visita um fisioterapeuta ou osteopata que não o conheça, eles ficam impressionados pelos calos e pela pela rija. Essas mãos, quase garras, estão cobertas de magnésio para livrar do suor as extremidades que muitas vezes sustêm sozinhas o peso de um corpo.

As mãos são o que mais se ocupa com a ocupação dele. Mas não se ocupam só a escalar.

Também ocupam vias, prendem presas e placas de titânio nas paredes, com calma, para que ele e outros as possam escalar depois. Um trabalho que tem feito no Cabo Espichel e onde já se gastou perto de 15 mil euros. Mas também servem para tocar instrumentos, premir botões e ajustar sonoridades no estúdio de música que tem em casa, um “hobbie mais intenso” que o fez tatuar uma clave de sol num dos antebraços e ter o Arco MC’s, grupo que formou com o irmão e o primo. Nos intervalos das fissuras, Neres tirou um curso de Criação e Composição Musical.

As mãos ocupam-se, por outro lado, com os telemóveis espertos que aprendeu a reparar ao ver tutoriais na internet e também “trabalham coisas” em madeira, gosto herdado do avô e do tio, que eram “extremamente hábeis” e o ensinaram.

O homem e a rocha, este é, e vai continuar a ser o dia a dia de André Neres

São as mãos aturadas de André Neres que pegam nas filhas e o fizeram preferir a escalada ao futebol, contrariando ditados como os filhos do peixe sabem nadar, o tal pai e o tal filho. É que os pés do pai, Fernando Neres, eram tão bons que até o fizeram chegar ao Sporting.

As mãos que não param de mexer, organizar e certificar coisas escondem outro traço da personalidade, que se junta à hipercompetitividade e à ausência de medo que o levaram a escalar sem corda noutros tempos.

— Sou um bocado OCD [Transtorno Obsessivo-Compulsivo, em português]. Não sou maníaco, mas quando era miúdo, se via alguma coisa que não estava bem, aquilo mexia comigo. Tinha de ir fazer alguma coisa para remediar.

Hoje, não precisa de remédio algum. André Neres não hesita, não duvida e não arrisca em escalar sem corda.

— Gosto demasiado de andar cá. A rocha é espetacular, mas se partes uma presa e ficas sem corda, não controlas. Não consegues bater as asas.

André não vai cair nessa tentação.


Créditos

TextoDiogo Pombo FotografiaJoão Carlos Santos Imagens de droneTiago Pereira Santos Vídeo e ediçãoAndré de Atayde InfografiaJaime Figueiredo Web DesignTiago Pereira Santos Web DeveloperMaria Romero Coordenação editorialPedro Candeias, Joana Beleza, Germano Oliveira
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