Multimédia

Mexe os pés, João

Um rapaz saiu de casa aos 15 anos e foi para a Catalunha à procura de um sonho. Levou com ele a determinação, o talento e os conselhos de quem ficou para trás, a vê-lo crescer à distância de um telefonema

Reportagem Pedro Candeias e Joana Beleza
Fotografia Rui Duarte Silva
Infografia Sofia Miguel Rosa
Grafismo vídeo João Roberto
Web design Maria Romero

Reportagem Pedro Candeias e Joana Beleza Fotografia Rui Duarte Silva Infografia Sofia Miguel Rosa Grafismo vídeo João Roberto Web design Maria Romero

João Sousa nasceu em Guimarães, ganhou dois títulos ATP e é o melhor tenista português de sempre. Isto toda a gente sabe. Mas há outro João Sousa, o miúdo que era certinho na escola, o filho que nunca deu problemas em casa e o homem que paga para trabalhar. Foi isso que o Expresso descobriu quando esteve com ele, com a sua família e amigos a 26 de dezembro de 2015. Um dia depois do Natal, o tenista acordou cedo para retomar os hábitos do costume durante a pré-época: pequeno-almoço às 08h e cinco a seis horas de treino. O descanso acabou. Para quem anda cerca de 34 semanas por ano em competição, a raquete nunca pode estar longe da mão.

Tigre da Malásia 29 de setembro de 2013 João Sousa não tem nada a perder. Não virá nenhum mal ao mundo se a aventura acabar ali, com uma derrota, porque as coisas são o que são, e ele já fez mais do que se esperava. Deve estar escrito algures que há um número limite para as histórias de superação, daquelas que se veem no cinema, em que o tipo caído do nada vence o campeão no último minuto do último assalto. Estilo Rocky Balboa.

Ele sabe que é mais novo e menos experiente do que o tipo do outro lado da rede. Sabe que entre os dois cabem oito anos e 44 lugares, num ranking que não mente, porque o sistema de pontuação ATP é o mais perfeito e justo dos desportos individuais. Sousa sabe que está pior classificado do que Julien Benneteau, e sabe que é pior jogador do que Julien Benneteau.

À superfície, naquele piso rápido, é assim que se apresenta a final, desequilibrada pelos números, ainda que as forças estejam um bocadinho mais niveladas do que dizem as estatísticas. Porque nos quartos de final, o português eliminou David Ferrer, o 4º melhor do planeta. Porque nas meias finais fez cair Jürgen Melzer, 21º do ranking.

O ténis de Sousa mudou e com ele mudou o contexto.

Ali está ele na quente e húmida Kuala Lumpur, pronto a dar tudo, mesmo que lhe falte o indispensável para quem faz daquilo a sua vida. Está todo vestido de preto, calções e boné de marca branca, não tem patrocinadores. João está descaraterizado, Julien equipado como um profissional.

Nas bancadas estão o treinador, Frederico Marques, um punhado de emigrantes portugueses e muitos malaios que vão puxar por ele, o mais fraco entre os mais fortes. No desporto, torcemos pelos nossos ou pelos mais fracos.

Mas não é só o público que está com ele. Há algo mais que não se vê e a que ele só prestará atenção mais tarde - algo que explica por que raio anda a bater bolas como um jogador de top-20 que não é. E também há algo a menos - aquela voz que sempre o aconselhara está a milhares de quilómetros de distância, em Guimarães, a gritar o mesmo de sempre em frente à televisão:

- Mexe os pés, João!

São 14h30 na Malásia, mais oito horas que em Portugal. Está na hora de mexer os pés.

Fora do Putra Stadium estão 32 graus e a humidade ronda os 40%. Tudo normal nesta altura do ano no sudeste asiático. Dentro do recinto, o ambiente também vai começar a aquecer.

João Sousa entra nervoso e perde o primeiro set por 2-6 para Benneteau e está a uma nesga de perder o segundo e, por inerência, a final. Contraria as probabilidades: salva um match point contra e bate o francês por 7-5 no segundo set. Respira fundo, o melhor ainda está para vir.

No terceiro set, João Sousa quebra o serviço de Benneteau, faz o 2-0 e gere a vantagem no marcador. Parece que tudo será linear, desta vez. Não é. Às tantas, Julien Bennetau tem três pontos de break à mão para igualar o jogo a 4-4, complicar as contas ao português e relançar o jogo. Mas João Sousa salva o primeiro, o segundo e o terceiro, faz o 5-3 e acaba por fechar o encontro com 6-4. É como recuperar três segundos numa corrida de atletismo. Ou levantar o corpo do tapete no último segundo da contagem de dez segundos para evitar o K.O.

Rocky derrotou Apolo Creed.

Foi duro, épico e histórico, nunca um português vencera um torneio do circuito ATP. João Sousa deita-se no chão, suado, com uma bola de ténis a rolar pelo bolso dos calções, e depois vai abraçar-se a Frederico Marques. Telefona a avisar que vai mais cedo para casa, que anulou a participação nos outros torneios para estar com a família. E envia uma mensagem de agradecimento a Luís Miguel Coutinho, o homem que um dia lhe disse não ter mais nada a ensinar-lhe. Esse dia ter-lhe-á traçado o destino, mas não são as coisas intangíveis que lhe interessam agora.

É tempo de celebrar, de ser recebido pela câmara de Guimarães, de dar entrevistas, de ganhar a alcunha do Conquistador, de arranjar um patrocinador para a camisola, calções e boné, de assinar com o empresário Jorge Mendes, de pôr um cachecol do Vitória ao pescoço. Enfim, é tempo de absorver toda aquela nova realidade de uma só vez.

Só que aquela realidade é uma mentira.

Uma pequena queda para este homem, um grande salto para o ténis português

João Sousa acabou 2013 no 49º posto do ranking, um pulo de 51 lugares no espaço de um ano. Logo aí, entrou para a história como o melhor tenista português de sempre no currículo de uma federação nascida em 1925. Os portugueses começaram a conhecê-lo de nome e de cara, não só os portugueses de Guimarães em geral, mas os portugueses de Portugal em geral. O tipo do boné com a pala para trás que trocara o Minho por Barcelona, aos 15 anos, passou a aparecer nos jornais e na televisão. Era notícia quando o João Sousa ia jogar. O rapaz já ganhara uma vez, o mais certo era ganhar uma segunda vez.

Mas essa vez não chegou.

No ano seguinte, 2014, João Sousa venceu 24 encontros, mas não venceu outro torneio ATP e o ranking nunca subiu o suficiente. No final desse ano até desceu cinco lugares relativamente ao anterior. Começaram as dúvidas, nasceram as inseguranças. Talvez não fosse tão bom como o pintavam, aquilo de Kuala Lumpur teria sido sorte, chegar à 3.ª ronda do US Open fora um acaso, ganhar o Challenger de Guimarães era irrepetível. Talvez João Sousa fosse como Michelle Brito, a adolescente portuguesa que derrotou Maria Sharapova em Wimbledon e passou a viver de resultados fugazes.

Seria João Sousa um fogacho?

Posição de joão sousa no ranking mundial desde 2008

*ESCOLHA AS DATAS (ajustando o cursor da linha do tempo)

FONTEatp world tour

FONTEatp world tour

Deitar cedo e cedo erguer 26 de dezembro de 2015, Guimarães Dois anos depois de Kuala Lumpur, João Sousa reconhece que aquele João Sousa não era o verdadeiro João Sousa. Ou melhor, era e não era. Nos últimos meses de 2013 foi uma versão melhorada de si mesmo, por culpa de um conjunto de variáveis que se podem resumir numa palavra: confiança. São momentos em que tudo corre bem, instantes inexplicáveis, que até se podem estender no tempo. Nesses dias quase místicos, pairou sobre o cansaço e o ranking e as estratégias e os erros não forçados, e bateu a bola com a força e a precisão que desconhecia ter. A palavra que ele usa para definir o que lhe aconteceu é “nuvem”.

Ele esteve numa nuvem e o problema é que as nuvens são passageiras.

O tempo ajudou-o a interiorizar que estava a jogar acima das suas possibilidades, mas que aquilo podia acontecer a qualquer um. “Uma semana boa toda a gente pode ter”. O importante é manter uma linha coerente e “profissional”.

Diz ele que o talento é uma história mal contada, porque o talento é sobretudo trabalho. Deus, superstições e sorte não existem. O que existe é o exercício. Repetir. Acertar. Errar. Repetir. Acertar. Errar. Praticar. Mecanizar. O movimento tem de ser fluído, o corpo tem de estar bem posicionado, os pés têm de estar ativos.

- Mexe os pés, João.

Alguém grita. João Sousa ouve aquela voz mas não faz caso, está a treinar com Vítor Silva, a recuperar do descanso da Consoada. Não estão sozinhos. No campo coberto do Open Village Resort de Guimarães estão alguns amigos, fãs, o assessor de imprensa, a família e três jornalistas.

À medida que vai aquecendo o braço, João Sousa calcula os seus passos e os ângulos, enquanto o bate-boca com Vítor Silva prossegue entre pancadas. Eles conhecem-se desde sempre e mesmo que a vida os tenha posto em pratos opostos da balança, percebe-se a cumplicidade entre ambos. E também se percebe, logo ali, a diferença entre um tenista do topo que anda pelo mundo fora e um tenista que ganha a vida a ensinar miúdos em Singapura. À meia-hora, o João está imaculado e o Vítor esbaforido de tanto correr atrás da bola.

Se o treino acabasse logo ali, o professor de Singapura sairia com a dignidade intacta e um passing shot no bolso. Só que é então que o Conquistador acelera e o desequilíbrio volta a ser reposto.

Repetir. Acertar. Errar. Praticar. Mecanizar

Pela estrada fora Verão de 1999, Guimarães João Sousa e Vítor Silva foram companheiros de treino durante anos e compinchas de viagem para Barcelona, quando iam aos campos de verão bater bolas contra os melhores de Espanha. Essas idas à Catalunha começaram em 1999, à boleia do pai do Vítor, que se chama Adriano. Os dois miúdos encaravam aquilo como uma oportunidade.

Para o Vítor, era uma oportunidade para estar com o João, porque aprendia com ele e, andando com ele, que era certinho, era certo que não se ia meter em apuros. Ele não era nada parecido com o amigo. Às vezes, nas raras vezes em que estava por cima num jogo, até o deixava ganhar um ponto só para não o ver chateado. O Vítor levava as coisas na desportiva.

Para o João, ir a Barcelona era uma oportunidade para estar com os melhores, porque ele estava à frente dos outros rapazes contra quem habitualmente jogava. Precisava de estímulos. Se os outros brincavam e faziam palhaçadas isso era lá com eles. O João levava o ténis a sério, queria ser levado a sério. Não queria ser apenas bom. Queria ser o melhor.

Já agora, o João era bom em tudo. Bom filho, bom irmão, bom aluno, bom no ténis e bom no futebol. Sempre foi.

Armando, pai de João Sousa, diz que o filho é competitivo porque ele também é

Parabéns! É um menino 30 de março de 1989, Guimarães Armando e Adelaide Sousa mudaram-se de Celorico para Guimarães, quando Armando foi lá colocado como juiz. Como sempre fora ativo e deixara de jogar futebol, Armando Marinho de Sousa aceitou o convite de um amigo para jogar ténis e manter a forma. Isso aconteceu precisamente no ano em que o João nasceu, em 1989.

Os tempos que se seguiram não foram fáceis: o bebé viu o dia tarde, de parto provocado, chorou durante seis meses inteiros à conta das cólicas e o berreiro era tal que ninguém dormiu no entretanto. Mas o João cresceu bem e depressa e o pai, que era competitivo e tinha olho para o desporto, percebeu que o filho tinha boa coordenação motora. Aos poucos, foi levando-o consigo para o Clube de Ténis de Guimarães.

Enquanto o pai treinava, o João pegava numa raquete maior do que ele e passava o tempo a bater bolas contra uma escadaria do edifício. Não demorou muito até dar o salto para as aulas com os outros miúdos do clube. E também não demorou muito para os professores perceberem que estava ali um miúdo diferente.

Como lhe apanhava o jeito rapidamente, o João estava sempre a pedir mais e mais ao treinador. Luís Miguel Coutinho lembra-se que o miudinho tinha pressa de chegar longe e, sobretudo, de ser perfeito. Para o João, um bom jogo era o jogo em que o adversário não lhe devolvia uma bola sequer. Só winners. Caso contrário, amuava, mas aquilo passava-lhe. O que ele queria era aprender.

À esquerda, a família Sousa em Roland Garros. À direita, Luís, João, Adelaide e Armando

Em cima, a família Sousa em Roland Garros. À direita, Luís, João, Adelaide e Armando

Nunca faltou a um treino nem ao respeito ao treinador, aceitava o que lhe exigiam sem problemas, birras ou fitas. E os pais não se preocupavam com aquele lufa-lufa, porque ir para a frente no ténis nunca fez a escola andar para trás. Que se recorde, só teve um “três”, a Educação Física, porque a professora não ia com a cara dele. De resto, só “quatros” e “cincos”. Era ótimo em Matemática.

Daqui se percebe que João Sousa podia ter sido o que quisesse, e chegou a imaginar-se médico ou futebolista no Vitória, onde jogou para ganhar velocidade. O pé esquerdo “fazia maravilhas”, diz Luís. “E não é por ser meu irmão que o digo”.

O João e o Luís não se parecem como os irmãos se devem parecer: um é loiro, outro é moreno; um é sério e reservado, o outro, garante o próprio, sempre “foi malandro”. O João tinha jeito para tudo o que era desporto, o Luís lamenta que o pai não tenha apostado nele no desporto motorizado. O pai defende-se e diz que o Luís nunca mostrou a mesma força de vontade para os carros que o João mostrava para as raquetes. Era uma questão de caráter. “O João nunca teve medo de nada. E sempre foi muito focado.”

O rapaz que podia ser tudo decidiu ser tenista.

Este senhor é Paulo Ricardo Santos e foi campeão europeu pelo FC Porto. Faz parte do círculo fechado de amigos de João Sousa

A família e os amigos passaram a organizar-se à volta da vida e dos horários do João. Um deles foi Paulo Ricardo Santos, antigo futebolista campeão europeu pelo FC Porto, que calhou ser vizinho dos Sousa. Paulo Ricardo fazia de motorista do João, levava-o da escola em Guimarães até ao complexo da Maia, onde passou a treinar depois. “O doutor Marinho andava sempre muito atarefado, pedia-me que levasse o João”. Falavam pouco durante aquela hora passada no carro, porque o adolescente aproveitava para dormitar ou comer. Era tão meticuloso e cuidadoso a roer maçãs que estas lhe duravam a viagem toda nas mãos.

Desde pequeno que era assim, arrumado e perfecionista. Com três ou quatro anos abotoava as camisas sozinho, de baixo para cima, tal como a mãe lhe ensinara, enquanto esta vestia o Luís Carlos. Raramente se sujava ou fazia disparates, nunca partiu nada em casa, nem mesmo a jogar ténis, e tinha as coisas dele sempre num brinco.

Hoje, quando os jornalistas do Expresso o veem pela primeira vez, está a limpar o para-brisas do SUV e a maldizer as árvores de Guimarães. Dá a ideia de que podemos emprestar-lhe o carro durante uma semana - será devolvido limpo, lavado e aspirado.

Mas além de perfecionista e arrumado, também tinha um espírito independente. Mal começou a andar, largou a mão dos pais para correr por ali fora para explorar a vida. Não dava problemas, só obrigava a correrias. Era hiperativo, determinado, confiante e competitivo, traços comuns a quase todos os atletas de topo. O tipo de atleta que ele sonhava ser.

João Sousa a treinar um dia depois do Natal

Adeus Portugal. Hola España! 4 de setembro de 2004, Barcelona O dia em que Luís Miguel Coutinho achou por bem dizer ao pai do João que nada mais tinha a ensinar-lhe, foi o dia em que tudo mudou. A família contraiu um empréstimo, que ainda está a ser saldado, para pagar o futuro do futuro tenista. Aos 15 anos, a 4 de setembro de 2004, dois dias depois do aniversário do irmão, o João embarcou em Vigo com destino a Barcelona. Armando, Adelaide e o Luís fizeram o caminho de regresso da Galiza ao Minho em silêncio. Não havia muito para dizer, só para pensar.

Estariam a tomar a decisão certa? Estariam a ser bons pais? Como é que o Joãozinho se ia safar, sem a sopa feita com legumes frescos, sem as tangerinas e as maçãs Fuji? E sem os amigos e o irmão? E quem é que lhe ia gritar :

- Mexe os pés, João!

No meio daquela loucura, os pais só lhe fizeram prometer uma coisa: ia para Barcelona, sim, mas não podia parar de estudar. Ao primeiro chumbo na escola, combinaram entre eles, o João voltava para Guimarães.

Foi mais um peso nos ombros do miúdo, que sabia dos sacrifícios da família, que percebia puto de catalão e era o único português na Federação Catalã de Ténis. E que também era o único aluno interno sem ensino integrado - tinha de ir à escola entre os treinos de ténis.

À hora a que as aulas acabavam, não havia carrinha disponível para o trazer de volta à Federação, que ficava numa zona pouco simpática da cidade. À saída do metro, tentaram assaltá-lo duas vezes e das duas vezes ligou à mãe a contar o que a acontecera e a pedir-lhe conselhos. O que devia vestir no dia seguinte? A mesma roupa? Mas então os assaltantes não o iam reconhecer? Não seria melhor trocar de kispo?

Nos primeiros meses, a mãe não pregou olho. Talvez, pensava ela, talvez se tivesse precipitado a deixá-lo ir tão novo para Espanha. Barcelona era uma metrópole, Guimarães uma cidade pequena. E em Barcelona estava o filho e em Guimarães estava ela.

Mas o João não ia desistir. Nunca lhe passou pela cabeça regressar a casa, nem mesmo quando comia a comida requentada da cantina, sozinho, já os outros rapazes estavam nos quartos. Tinha saudades de quem lhe fazia as refeições e a cama e lhe passava a ferro a roupa do dia seguinte, mas, aos poucos, estabilizou emocionalmente e foi evoluindo o seu jogo. Falava ao telefone com a família, todas as noites sem exceção, dava no duro nos treinos durante o dia, estudava quando e quanto podia. E nunca chumbou.

Fez o caminho dele.

Trocou a Federação pela Academia BTT, de Francisco Roig, o treinador suplente de Rafael Nadal. Aprendeu catalão, castelhano, francês e italiano. Tornou-se profissional em 2005. Disputou torneios Futures e ganhou o primeiro troféu da categoria em 2009. Passou para os Challengers, o plano seguinte, e conquistou o primeiro título em 2012. E foi em outubro desse ano que entrou para o top-100 do ranking ATP.

Mi casa es tu casa 31 de outubro de 2015, Valencia João Sousa já esteve neste lugar. Uma final do circuito ATP, o treinador Frederico Marques e os emigrantes portugueses na bancada. Desta vez, também lá estão o preparador físico, a namorada e o irmão. Valencia não está tão longe de Guimarães e Espanha é o país onde ele vive, diz que lá se sente em casa.

O Conquistador veste uma camisola azul com padrões, calções pretos e um boné, com logos da marca que o veste e do banco que o patrocina; mais tarde, trocará para uma t-shirt branca, também com padrões e os logos da marca.

Do outro lado da rede está Roberto Bautista Agut. João Sousa sabe que entre ele e Agut há dez lugares de diferença no ranking e que o ranking não mente. Mas o português também sabe que ele e Agut têm praticamente a mesma idade e sabe, por fim, que Agut até o pode ter batido quatro vezes consecutivas, mas que a última vitória até foi sua, em Umag, na Croácia. É mais provável ganhar a Agut do que foi ganhar a Benneteau na Malásia.

Instintivamente, João Sousa começa a mexer os pés como sempre lhe disseram para fazer. E, como na Malásia, o português entra a perder – primeiro set, 3-6 para Agut. Mas a reação é forte e destemida: 6-3 e 6-4. João Sousa faz história pela segunda vez e corre a abraçar-se aos que puxaram por ele. Há um suspiro de alívio coletivo no grupo. Kuala Lumpur não foi um fogacho. Ele não é um fogacho.

É um tenista de elite.

Pão pão, queijo queijo 26 de dezembro de 2015, Guimarães No restaurante preferido dos Sousa em Guimarães toda a gente o conhece e reconhece. Parabéns Joãozinho, estiveste muito bem em Valencia, Joãozinho, és o nosso orgulho, o nosso Conquistador. Passou-se um mês e meio desde a vitória de João Sousa em Valencia e ninguém quer esquecer essa tarde. Há desportivos nas mesas, que escrevem sobre ele pela alcunha e há um amigo da família que guarda cada um dos recortes dos jornais em que o João aparece. Ele está em família, a família que perdeu direito ao nome próprio. Armando Marinho de Sousa não é Armando Marinho de Sousa - é o pai do João Sousa. Tal como Adelaide é a mãe do João Sousa e o Luís Carlos é o irmão do João Sousa. Ele ri-se, descontrai, explica aos jornalistas do Expresso o que acha do on record e do off record, e revê com o pai os torneios que fará em 2016, data a data.

Há melão, filetes de peixe panados, água, refrigerantes, vinho, pão, azeitonas e carne. O João não bebe Coca-Cola nem vinho, tem cuidado com o que come, mas esta noite pode vir aquele bolo de bolacha da casa. É Natal, o ano foi bom.

João Sousa explica que encontrou o seu espaço no circuito ATP, um mundo competitivo e tramado, onde não há amigos, apenas respeito, que não se deve confundir com medo. Já nada lhe tira o sono antes de um grande encontro, coisa que não aconteceu quando defrontou Novak Djokovic no US Open de 2013, depois de uma noite passada em branco.

A Adelaide também já dorme. O Skype, o Facetime e a internet encurtam distâncias e o João até a levou uma semana inteira para Wimbledon, só os dois, mãe e filho, um gesto que há de recordar enquanto for viva. O irmão tem outros episódios para contar, como daquela vez em que o João pediu a três craques para gravarem um vídeo de parabéns ao Luís. “Foi uma supresa incrível”. Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic desejaram-lhe um bom dia. Não acontece todos os dias.

O dia-a-dia de João Sousa é andar no meio das estrelas - está regularmente entre os 40 melhores do mundo e olha para os 20 primeiros como uma meta possível. Em novembro de 2015 chegou a 33º do ranking ATP, uma lista que vai do número 1 ao número 1500. Tenistas como Nuno Marques (nº 86, em 1995) e João Cunha e Silva (nº 108, em 1991) abriram caminho para tipos como Frederico Gil (nº 62, em 2011) e Rui Machado (nº 59, em 2011), mas João Sousa ergueu novos obstáculos entre ele e resto da concorrência.

Este é apenas mais um: foi cabeça de série no Open da Austrália em janeiro de 2016, estatuto inédito para um tenista português. Sousa chegou à terceira ronda e caiu perante frente Andy Murray, o nº2 do Mundo. Aqui e ali, num ponto ou noutro, deu luta ao escocês, mas no final reconheceu que lhe faltava a experiência para dosear o esforço num torneio de Grand Slam.

Pela primeira vez, um português foi cabeça-de-série num torneio Grand Slam. Aconteceu na Austrália

Depois disso, perdeu nas primeiras rondas de Montpellier, Marselha e Dubai; na Taça Davis representou Portugal, vencendo um jogo mas perdendo outro. A eliminatória jogou-se em Guimarães, a seleção nacional foi derrotada e ele chorou, frustrado. Dias depois, estava em Indian Wells, nos EUA. A vida continuou entre escalas e aeroportos e muitos lugares para visitar, mas pouco tempo para o fazer.

De Kuala Lumpur para cá, muita coisa mudou.

João Sousa é capa de revistas masculinas, aparece em spots publicitários na televisão, é o rosto de um banco. O que ganha nos torneios e em patrocínios permite-lhe pagar as passagens em primeira classe para ele e para o treinador, o que faz toda a diferença quando se viaja de um canto para o outro do planeta. Ao todo, já somou 2,3 milhões de euros em prize money, mas gasta entre 150 a 200 mil euros por ano em deslocações, hotéis, refeições ou fisioterapia. O que sobra, confessa, é mais do que suficiente para viver bem e, quem sabe, um dia abrir uma academia de ténis.

O João é que não mudou.

Continua a mexer-se num círculo fechado, com poucos amigos, próximo do pai e da mãe, a olhar pelo irmão, a quem já pensou oferecer uma moto. Pensou duas vezes, tem medo que se aleije, e não quer ficar com esse peso na consciência. João Sousa não é só perfecionista, arrumado e independente. Também é protetor.

Um dia, quando eram miúdos, o João partiu sem querer uma perna a um rapaz que tinha dado uma cotovelada no Luís, mas esse é um ângulo que ele não quer explorar, o da irascibilidade, que no início de carreira o levou a gritar palavrões durante os jogos.

De vez em quando, se lhe cheira a injustiça ou se alguém lhe falta ao respeito, a calma e todas as técnicas de visualização perdem para o mau feitio. Com Jerzy Janowicz, por exemplo, discutiu no final de um encontro no torneio Winston Salem, em 2014, por causa de um ponto. “Mas não há muitos jogadores que gostem do Janowicz. É... especial”, defende-se.

João Sousa tentou corrigir esse lado volátil com a ajuda de uma psicóloga e, posteriormente, do treinador Frederico Marques. Hoje garante que está muito melhor, que relativiza o que se passa entre pancadas, que a cabeça está sempre à frente e o passado lá atrás.

Quanto àquele assunto da perna partida, digamos que ficou por ali, ninguém apresentou queixa. É que o João era o João, um menino calmo, inteligente e popular na escola, porque conseguia fazer tudo e fazer tudo bem. Só precisava de seguir os bons conselhos.

- Ele tem é de mexer os pés, pá. Ó João, mexe os pés, nunca te esqueças, ouviste?

O João diz que sim e ri-se do pai. E o pai ri-se com ele.

Início

Entrevista