O cabelo vem apanhado de casa. As meias são cor-de-rosa. Não importa se mais escuras ou se mais claras. Não importa a cor do collant, se o pé está rente ao chão ou protegido pela sapatilha. O foco está na contagem. “Primeiro sem música”, diz a professora.

Ajeita a sapatilha aqui, ajeita a posição acolá. Sem esquecer que a ponta do pé deve estar lá longe, bem esticada. Tudo a postos? Cinco, seis, sete e oito. Em milésimos de segundos, a sala enche-se de instrumentos.

Ouvimos a versão orquestrada da valsa d’Amélie. Por momentos, deixamo-nos levar além do teto por cimentar, das imperfeições do chão e das paredes. Esquecemo-nos de que lá fora há tiros e drogas e mortes e escuridão. A luz deste palco é feita de sol. Dos raios tropicais que se metem pela sala adentro e que dão brilho às pequenas bailarinas.

Estamos no Museu da Maré, na Avenida Guilherme Maxwell. A mesma que dias antes era percorrida por um tanque de guerra e camiões de caixa aberta do Exército. Lá em baixo, num grande pátio, os pais aguardam pelo final da aula. Num segundo galpão começará mais tarde a aula de capoeira. “Costumamos dizer que é um museu vivo”, diz de forma apressada Adrielly Ribas, que está prestes a acompanhar um grupo de jovens numa visita de estudo fora do Complexo.

O Museu da Maré “pulsa” desde 2006. O projeto partiu do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM), que diariamente dinamiza várias oficinas para centenas de crianças da comunidade. Desde o hip hop ao ballet, passando pela capoeira, seminários, teatro, exposições, yoga e cinema.

Memórias do passado: fotografias de antigos moradores preservadas pelo Museu da MaréFoto deCélia Lamarão

Dividido em dois armazéns, o museu alberga uma exposição sobre o passado, presente e futuro da Maré. “Aqui, onde muitos só enxergam a violência, nasce uma nova maneira de contar os tempos da cidade”, lê-se à entrada, onde a história da comunidade é contada através de fotografias e objetos cedidos pelos moradores.

Mais de 40 mil pessoas de várias partes do globo já passaram pelo museu, que é hoje reconhecido como atração turística prioritária do estado do Rio e disputa o título de primeiro museu numa favela. “O central não são só os objetos”, frisa Adrielly. “São os sujeitos, as atividades, as relações dentro e fora do espaço da exposição. É você contar e construir a sua própria história.”

Em 1986, a música “Alagados” da banda “Os Paralamas do Sucesso” tocava no rádio dos brasileiros. A canção de pop rock, com um toque reggae, falava-nos da dura realidade de quem morava numa favela nos anos 80. Dos “filhos da mesma agonia”. Das “palafitas, trapiches, farrapos”. Estivéssemos na Jamaica, em “Trenchtow”, ou na “favela da Maré”, no Rio de Janeiro.

Em 2016, ano em que o Rio recebe os Jogos Olímpicos e comemora o seu 451º aniversário, a cidade de braços abertos parece continuar de “punhos fechados na vida real”. Edson Diniz defende que “não só a Maré mas o Rio de Janeiro precisam de caminhar para a integração”. “Temos de acabar com essa história de gueto, de favela, de cidade partida.”

Uma janela para a MaréFoto deAngélica Prieto

Desde 2009, segundo dados cedidos pela Prefeitura do Rio de Janeiro ao Expresso, foram investidos mais de 73,8 milhões de reais na Maré (cerca de 17 milhões de euros) nas áreas de educação, saúde, urbanização e serviços de iluminação e limpeza. Mas o investimento não é suficiente. “Temos feito um trabalho de conversa com o Estado, com a prefeitura ao longo do tempo.” Chamar o “Estado e o município à responsabilidade”.

De 15 em 15 dias, todas as associações de moradores da Maré, ONG e representantes da prefeitura e do estado do Rio de Janeiro reúnem-se num “grande fórum”, conhecido como “Maré que Queremos”. “A questão da segurança tem-se discutido muito”, confirma Edson. “As escolas não abrem com medo, os postos de saúde não funcionam” e a polícia é “muito violenta”.

Edson denuncia que o Governo brasileiro “sempre se negou muito a atender as pessoas mais pobres”. O morador da favela é “malvisto” e quem está de fora vê apenas “histórias de fracasso”. Pelo contrário, frisa ainda, “existem pessoas sem condições que vencem, que constroem as suas casas, a sua família - têm os seus filhos entrando para a universidade, virando doutores, e isso é uma história de sucesso, não de fracasso”.

Como dizem os versos da música dos Paralamas, “a esperança não vem do mar, nem das antenas de TV”. É a “arte de viver da fé - só não se sabe fé em quê”.

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