A incerteza trazida pelo sobe e desce das águas foi substituída pelo medo da bala perdida. Do mais jovem ao mais velho, o morador da Maré teve de aprender a conviver com a violência trazida pelo narcotráfico. Quer seja à noite, quer à luz do dia. Vivem-se tensões à porta de casa, da escola, do centro de saúde, da igreja. “Eu ando com muita naturalidade. Sai tiro e as pessoas correm. Eu fico olhando, já estou acostumado. Não sei se é bom ou se é ruim”, garante Higor, sorrindo. Mas há quem lhe lembre: “Você não tem o corpo fechado”.

Dois grupos criminosos, o comando vermelho (CV) e o terceiro comando puro (TCP), dominam o tráfico de drogas na Maré. A presença das fações é visível. Nas paredes, em graffiti, vêm-se inscritas as siglas CV e TCP consoante a favela dominada pelos grupos criminosos.

Salta à vista do frenético quotidiano da Maré os meninos que seguram walkie talkies à porta da favela, nas chamadas “bocas de fumo” – locais onde é vendida a droga. Os meninos que seguram na mão uma metralhadora e que na brincadeira dizem ao amigo do lado “guarda a pistola na mochila”. Os mesmos meninos que nos pedem, forasteiros, para que não se filme na favela porque é “perigoso”.

Para quem vem de fora, as ruas confundem-se. Ruas essas que só quem conhece decifra o seu significado. “Existiram momentos em que três fações dominavam diferentes partes do Complexo da Maré. Aí você imagina o conflito que existe quando a divisão entre uma favela e outra são ruas”, relembra Higor, que na adolescência foi obrigado a separar-se da paixoneta da altura devido ao escalar dos conflitos entre os grupos criminosos.

Em algumas ruas da Maré ainda saltam à vista paredes esburacadas pelas balas. O jogo de sedução do mundo do tráfico é algo que o jovem “está mais do que acostumado” na favela. Higor nunca recebeu a “proposta” do outro lado. Mas muitos dos amigos de infância com quem Higor brincava, ia para a escola, integram hoje alguma fação criminosa.

“Um rapaz negro, de acordo com padrões da sociedade, não tem uma boa aparência física. Mas ele também quer namorar. Depois ele percebe que ao colocar uma arma na cintura e ficar na esquina existem meninas que se sentem atraídas. Aquela sensação de poder e falta de oportunidades lá fora faz com que eles pensem ‘o meu mundo é esse aqui’”.

Alan Lira, de 19 anos, está a terminar o ensino médio, e também conhece quem “já tenha sofrido com isso”, amigos que “vieram a falecer” por estarem envolvidos com o narcotráfico. Nasceu na Nova Holanda e desde então nunca viveu fora da Maré. A infância foi “bem legal”. “Naquela época, não existia telemóvel, então eu saía muito para a rua, jogava bola, brincava de bolinha de gude”, conta Alan, um rapaz irrequieto mas bastante sorridente, numa altura em que o calor dos termómetros parece não coincidir com a realidade.

Marcas de balas numa parede no complexo da MaréFoto deRicardo Moraes/Reuters

Estão mais de 40 graus e até a câmara parece fraquejar com o calor. Ao longe ouvimos uma insistente e ruidosa furadeira enquanto Alan nos fala da Maré como um lugar “bem tranquilo”. De vez em quando “rola um tiroteio”, mas está já “acostumado”.

Os planos para o futuro já estão feitos: quer fazer faculdade e ter um emprego. “A maioria dos meus amigos tem essa ambição de fazer uma faculdade, de tirar notas boas para ser alguém na vida”. O “papo” é de adulto, mas Alan gosta mesmo é “desse papo de Universo”. Está a preparar-se para entrar num curso superior de Filosofia e é mais um exemplo de quem quer romper com o estereótipo do jovem favelado que se vê fadado a uma vida tomada pelo tráfico de drogas.

“Aqui, a maioria das pessoas não usa drogas, a maioria é trabalhador que inclusive tem um certo preconceito com isso”, defende Higor, que se interroga: “O tráfico de drogas no Rio de Janeiro movimenta milhões, talvez biliões: quem é que tem dinheiro para fazer isso? É a favela?”.

Soldado do exército brasileiro patrulha as ruas da MaréFoto deRicardo Moraes/Reuters

No início de 2014, a história de violência na Maré ganhou um novo capítulo cujo desfecho continua por vir. A 5 de abril desse ano, o Exército e a Marinha brasileira ocuparam o Complexo. Dá-se, assim, o início da operação “São Francisco” e mais um passo do Governo para expulsar o narcotráfico das favelas cariocas. O “processo de pacificação” das favelas, aplicado a outras comunidades carentes do Rio, teve início em 2008 com a nova política de segurança pública do Estado.

A presença militar não agradou a muitos moradores da Maré. Alguns viram a sua casa invadida durante operações da polícia, outros acabaram por perder a vida entre o fogo cruzado. Tudo isto em nome da “tão almejada paz social”, uma expressão usada pelo Ministério da Defesa brasileiro.

A operação incluía “atividades de patrulhamento ostensivo, revistas a veículos e pessoas, a realização de prisões em flagrante, o estabelecimento de postos de bloqueio e o cumprimento de mandatos de busca e apreensão na área de operações”. “Quando existem operações e você está na sua casa, assistindo televisão com a sua família e, de repente, a polícia simplesmente invade alegando que tem alguém [traficante] lá dentro, você tem de dizer ‘não pode entrar na minha casa sem um documento assinado’”. “Mas as pessoas acabam aceitando isso porque têm medo”, critica Higor.

Tiroteio entre elementos da Polícia Militar e membros de gangs de tráfico de droga na Linha Amarela, uma das principais vias do Rio de Janeiro, junto ao Complexo da MaréFoto deMauricio Fidalgo/Reuters

A ação de pacificação durou um ano e dois meses. Mais de 23 mil militares passaram pelo Complexo, onde pisaram, além de tropas do Exército e da Marinha brasileira, a Polícia Militar e o BOPE – Batalhão de Operações Policiais Especiais. De acordo com os dados oficiais, foram feitas 65 mil intervenções, 583 prisões, mais de 1200 apreensões de drogas, armas, munições, veículos e outros materiais, e 21 militares ficaram feridos. Oficialmente não se sabe quantas pessoas morreram.

Segundo contas feitas pelo jornal “Estadão”, o efetivo militar que esteve na Maré equivale a 85% do total de elementos do Exército, Marinha e Aeronáutica que participou na Missão de Paz do Haiti, entre 2004 e 2015, e desde abril do ano passado foram gastos cerca de 160 milhões de euros (559,6 milhões de reais) com a pacificação na Maré.

Para Higor, o combate ao tráfico de drogas não chegou ao fim. “É mentira você falar que acabou. Temos conflitos. Como é que você pode ouvir tiros num lugar que está pacificado? Não tem campo de treino de tiro aqui atrás”, ironiza.

Para as forças de pacificação, que se retiraram do Complexo da Maré a 30 de junho do ano passado, a operação “São Francisco” foi um “êxito”. As organizações criminosas viram ceifada a “liberdade de ação”. “Não há espaço na comunidade que não seja patrulhado, o uso ostensivo de armas diminuiu e o comércio ilegal de entorpecentes teve uma forte redução”, lê-se numa nota das forças de pacificação do Exército brasileiro, emitida em abril de 2015.

A última Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) deverá ser instalada na Maré até ao início dos Jogos Olímpicos de 2016, de acordo com o secretário de Segurança do Estado do Rio. A região está agora sob o controlo da Polícia Militar.

Mas muitos moradores, como a Dona Maria Luiza, não encontram “diferença” no dia-a-dia desde a ocupação do Complexo da Maré. “Para nós moradores, tanto faz como tanto fez os soldados estarem aqui. Construí a minha casa com muita luta. Eu vou embora porquê? Não adianta fugir da violência. Aqui está muito ruim, mas vai lá para o Estado do Rio para você ver como está.”

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