O emaranhado de casas e fios elétricos salta aos olhos de quem sai do aeroporto Tom Jobim e arrisca-se a entrar no caótico fluxo da Avenida Brasil, uma das principais vias de acesso ao Rio de Janeiro, que ladeia o Complexo da Maré. Mil e uma lojas e um manancial de cartazes – de todas as cores e feitios - vão-se dispondo, sem lógica, ao longo do caminho.

Vê-se parte da fachada da Maré enquanto do lado de fora do vidro, rente ao táxi que nos leva ao centro da cidade, carros, motas e bicicletas circulam freneticamente na Avenida Brasil. Aqui impera o hábil malabarista do trânsito, ninguém mais.

Olhando para cima, a pairar sob a avenida, avistam-se as várias passarelas que ligam as margens da Maré a outros bairros. Cada qual associada a um número. Ali, sob os carros, vê-se o passo apressado de quem vai apanhar o “ônibus” para o trabalho, ou de quem segue para a escola.

Ao todo, o Complexo da Maré pertence a mais de 130 mil brasileiros - quase o dobro de habitantes da maior favela carioca, a Rocinha. A região tornou-se um bairro em 1994, quase 60 anos após a chegada dos primeiros moradores. Apesar do título, as ruas continuam “as mesmas de há 70 anos” e, à semelhança de outras favelas cariocas, o convívio diário com a criminalidade é “normal”. Das dinâmicas alimentadas pelo tráfico aos confrontos armados entre os “meninos” que gerem o negócio da droga e a polícia brasileira. “Há favela mais tranquila para conhecer do que a Maré...”, avisaram-nos logo na primeira corrida de táxi. E o prenúncio da instabilidade vivida na região confirmou-se.

A Maré é uma das comunidades mais carentes do Rio de Janeiro. Trata-se da terceira área administrativa mais pobre da cidade, de acordo com o último Índice de Desenvolvimento Humano, publicado em 2010.

Localização do Complexo da Maré no Rio de JaneiroGrafismo deJoão Roberto

Quando se é miúdo, ser pobre pode nada significar. Pelo menos aos olhos de Higor Silva. Desde que nasceu, há 32 anos, vive no Parque Maré, uma das 16 favelas do Complexo. Ainda que tenha nascido numa altura de “extrema pobreza” no bairro, na década de 80, foi capaz de fazer história na história da família. É, juntamente com o primo, o primeiro a tirar um curso superior. Quebrar as barreiras que separam a favela do resto da cidade não foi fácil.

“Você é louco, vai fazer faculdade? Isso é coisa de quem tem dinheiro”, diziam-lhe em casa. “Há uns 15 anos era quase impossível, você não encontrava ninguém da favela na universidade. A falta de referências dentro do teu lugar faz-te acreditar que aquilo ali é impossível”, conta Higor, numa das salas da organização não governamental onde hoje colabora, a Redes da Maré, noutra comunidade do Complexo, na Nova Holanda.

O mareense licenciou-se em História no “quintal” de casa. Formou-se na Universidade Federal do Rio de Janeiro – aquela construída por muitos moradores da Maré -, que fica numa ilha logo ao lado do Complexo. E provou à família que eles é que estavam errados.

“Há muita discriminação por conta da cor da pele. Se forem negros e pobres, então fica ainda mais difícil”, testemunha Edson Diniz, um dos fundadores da Redes da Maré e professor de História na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na favela, o preconceito afeta sobretudo os mais jovens. A maior parte da população tem entre os 0 e 30 anos, ou seja, 70% dos moradores da Maré são jovens. “E o acesso dos mais novos aos direitos é muito limitado.”

“Tive de ir trabalhar com 13 anos” recorda Edson. “Não dá para você esperar ter 18 anos para planear o futuro. O futuro é agora.” No caso das famílias de classe média, “o menino nasce e o pai já cria um plano para ele - com 18 anos ele vai para a universidade, com 20 e alguma coisa está abrindo um consultório, indo para uma sociedade de advogados ou viajando”. Na Maré, não é bem assim. “Com 14 anos ou menos, o menino tem de ir trabalhar.”

Vista aérea do Complexo da MaréFoto deRicardo Moraes/Reuters

E para que os “meninos e meninas” da favela pudessem ter uma “nova perspetiva”, Edson e um conjunto de moradores da comunidade criaram a organização não governamental Redes da Maré. Queriam “cobrar do Estado brasileiro uma solução”. “Nós crescemos com estes problemas. A escola precária, a estrutura precária, a violência”, refere Edson, numa das varandas da Redes, na Nova Holanda.

O passado não saiu do presente da Maré. A precariedade teima em afligir os mais pobres e a geração jovem está consciente disso. Esse sentimento coletivo escorre pelas paredes da Redes da Maré. Enormes painéis de azulejos, feitos por crianças e jovens da comunidade, dão cor ao espaço e relembram a inocência madura de quem vive na favela.

Cada quadradinho branco reflete, com delicados tons de azul, aquilo que os mais jovens encontram na comunidade: as brincadeiras no parque e a alegria de aprender, mas também o lixo nas ruas, a violência, a presença das armas e dos militares, o medo.

O antes e o depois da entrada do exército: Antes, homens armados nas ruas, depois, os meninos finalmente a poderem brincar fora de casa

Volvidos oito anos, a ONG é responsável por 34 projetos sociais na Maré, em áreas como a educação, arte, cultura e segurança pública. O pré-vestibular (período preparatório de entrada para a Universidade), um dos projetos pioneiros da organização, permitiu a cerca de 900 jovens entrar em universidades públicas através de aulas extracurriculares. E estas aulas de reforço são orientadas por outros jovens da comunidade que, tal como Higor, conseguiram ir além do ensino médio (o equivalente ao secundário em Portugal).

Ainda que muito perto em termos geográficos, a universidade continua distante para quem vive na Maré. “Aqui no Brasil você estuda na escola pública a vida inteira, mas para entrar na universidade você só pode ir para uma universidade particular”, constata Higor. O jovem trabalhou entre os 19 e os 24 anos para poder se formar. “Às vezes pegava no trabalho de manhã e chegava em casa às 20 horas. Chegava cansado, mas se eu perdesse aquele salário como é que eu ia fazer?”

Em 2009, Higor “tomou coragem” e decidiu estudar para entrar numa universidade pública. Os quatros anos de trabalho mantiveram-no naquele ano e o esforço compensou. Conseguiu sete aprovações no vestibular e a “autoestima foi lá em cima”. Sem hesitar, Higor faz a comparação: “Quem disputa uma vaga no exame com você é aquele camarada a quem o pai paga uma mensalidade para ele estudar numa escola de elite e cuja mensalidade era muito maior do que aquilo que o meu pai recebia para sustentar toda a família aqui. É desigual”.

“É por isso que eu, às vezes, entendo que, devido a essas adversidades, existem pessoas que acabam tomando outros caminhos. Porque você quer viver. Você vê as pessoas, você é um jovem, mas as portas vão-se fechando.”

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