Vinte e oito de setembro de 1934. O dia em que Cionilia nasceu. Data que durante 13 anos não pôde comemorar. A vida de menina começou na “roça”, no Espírito Santo, estado vizinho do Rio de Janeiro.

Cionilia fez-se mulher com pouca idade. Aos oito anos, foi levada pelo tio para uma fazenda, em Campos, no norte do Rio, depois de perder a mãe. O tio abandonou-a ao seu próprio destino e ela depressa deixou de ser criança para ser “escrava”. “A infância chamava-se trabalho”, recorda, com clareza, nos atuais 81 anos.

Via as crianças passando com aquelas bolsinhas para ir para a escola. Ficava ansiosa e imaginava: 'Meu Deus, quando é a minha vez'.

A menina teve de fazer chegar a sua vez. Criou coragem, saltou o muro da fazenda, com a ajuda de uma vizinha, e fugiu. Fê-lo com 13 anos de idade (mas ainda não o sabia na altura, porque não lhe tinham dito em que ano havia nascido). Deixou, sem olhar para trás, o “prato, a colher e a caneca” que lhe pertenciam e que estiveram sempre à parte dos que lhe tiraram a infância. Mas queria saber quantos anos tinha. Nunca ninguém lhe dissera. E o que buscava estava no livro de escrivão do tio. Decidiu então procurá-lo no Rio de Janeiro, num lugar chamado Maré.

Seguiu em busca do tio depois de ter juntado alguns “mil réis” com a ajuda da segunda família que a acolheu. Desta vez, “gente muito boa”. Chegando à Maré, a resposta que almejava estava guardada no tal livrinho que tinha o “nome de todo mundo”. E as palavras do tio não as esquece: “Olha, você nasceu no dia 28 de setembro de 1934, no mês que vem você vai fazer 14 anos”.

Maria Luiza Silva recorda o passado junto aos álbuns antigos de fotografias na sua casa, no Parque Maré, uma das 16 favelas do complexo da MaréFoto deCélia Lamarão

Os anos passaram e o destino de Cionilia iria cruzar-se, mais uma vez, com a Maré. Por esta altura já era menina crescida, mulher casada e com certidão de nascimento. Depois de tratar de toda a documentação, até um novo nome arranjou. Cionilia ficou para trás para dar lugar a Maria Luiza. Um nome bom de se ouvir e que todos sabiam pronunciar.

Quando foi para o Rio de Janeiro, a “capixaba” – nome dado a quem nasceu no estado do Espírito Santo - trazia consigo quatro crianças e a promessa feita pelo marido de que teria na cidade grande uma casa guardada. Acabou por ficar na casa do “irmão de leite” do marido. Encontrou apenas um quarto, uma sala, uma cozinha que dividiam pelas duas famílias, e ainda uma latrina que fazia ‘buttuff’ dentro do valão”, a vala a céu aberto onde corriam os esgotos da favela.

“Era humilhada, as crianças não podiam tocar na parede porque a mulher do outro lado gritava. Sabe como é criança, a gente não segura”, conta Maria Luiza, que não esquece os tempos que passou no “lixão”. Foi a altura em que foi obrigada a apanhar lixo para dar de comer aos filhos. Por entre os restos deitados fora, ficava atenta àquilo que poderia usar um dia para construir a sua própria casa.

Manteve-se forte e conseguiu colocar de pé o próprio “barraco”. Fê-lo com a ajuda dos vizinhos. “Num dia, fiz o primeiro quarto. Quando cheguei de tarde, já pulei para dentro.” E o sentimento de alívio ficou na memória: “Graças a Deus, saí da casa dos outros”. Mesmo que a nova casa fosse paredes meias com o “valão” dos esgotos.

A Maré foi o refúgio de Maria Luiza. E a única saída para muitos outros brasileiros que arriscaram perder o pouco que tinham para conquistar o Rio de Janeiro. A esperança depositada na cidade de braços abertos levou-os a desbastarem a margens da Baía de Guanabara e a fazer do mar a sua terra. Não se olhava ao conforto, mas lutava-se por um lugar para viver. Mesmo que, para isso, fosse necessário conquistar espaço aos "manguezais", a zona de vegetação junto ao mar.

Os primeiros chegaram nos anos 40. Vinham da aridez do nordeste brasileiro, do interior do país ou de outras favelas do Rio desocupadas pelo Governo. Trabalhavam no centro da cidade e na construção de dois grandes projetos que nasceram nas margens do que é hoje a Maré: a Avenida Brasil, umas das principais vias de acesso ao Rio de Janeiro, e a Universidade do Brasil, atualmente a Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Construíram as casas sobre o mar, quando não havia mais espaço no único lugar de terra firme da região, o Morro do Timbau. Sobre enormes e finas estacas cravadas na água, os pequenos lares de madeira foram sendo erguidos à volta do morro e ao longo da Baía de Guanabara. Tinham o nome de palafitas. Muitas erguidas numa só noite pelos moradores, às escondidas, para que o Exército não as derrubasse. Durante a madrugada, os vizinhos reuniam-se em “mutirões” (expressão usada para referir um conjunto de pessoas que se juntava para trabalhar em prol da comunidade) para que fosse mais rápido construir o barraco. E iam ganhando terreno à água.

Já existiam “muitos barracos dentro d’água” quando a família de D. Maria Luiza chegou à Maré. Estávamos na década de 60, altura em que um tablado sob o mangue já estava feito. Por isso, era necessário apenas “levantar as colunas” da palafita. O barraco da família ficava apenas a um “palmo da água” quando a maré subia. Há quem diga que foi o último a ser construído na comunidade Parque Maré, que surgiu na década de 50, depois da expansão de palafitas na comunidade Baixa do Sapateiro (uma outra favela situada no sopé do Morro do Timbau).

A capixaba conta, com orgulho, que no seu barraco “nunca entrou água, não”. Teve uma “coisa de Deus”, acredita. Mas nem todos os vizinhos tiveram a mesma sorte. É o caso de outra Maria, que se mudou para a Maré acompanhada dos 5 filhos. Foi a 28 de setembro - o dia de aniversário de Maria Luiza - mas de 1976. Um dia que não lhe sai da memória.

Coincidências à parte, estas e muitas outras Marias resistiram ao sobe e desce do mar. Mas não só as águas da Baía de Guanabara fizeram frente ao povo da Maré. Até à década de 60, não havia acesso a luz, esgoto ou “água encanada”. Era necessário passar a noite em claro porque a água não caía todos os dias na bica.

Faziam-se filas de mulheres, homens e crianças junto à meia dúzia de bicas que jorravam água durante a madrugada. Havia quem recorresse aos latões de água ou, como D. Maria Luiza, ao “rola” – uma espécie de pipa que deslizava pelo chão. Vizinho ajudava vizinho, “um por todos, todos por um, cada um vivia como podia”, recorda agora, ao lado de uma das cinco filhas, na casa que hoje em dia é feita de cimento e tijolos.

Só em 1982, cerca de 40 anos após a chegada dos primeiros moradores à região da Maré, o Governo Federal do Rio de Janeiro realojou a população residente nas palafitas em conjuntos habitacionais. De provisórios, passaram a permanentes.

Joaquim Agamenon dos Santos foi para a Maré há quase 50 anos, em 1966. Na altura, tinha um “carro de venda de doce”. As guloseimas que vendia nas ruas do Rio de Janeiro vinham da “primeira empresa” do Morro do Timbau, a fábrica “Bala Ruth”.

Lá aprendeu o ofício de vendedor e conheceu a “mulher mais bonita do Timbau”, a Dona Dinda, com quem casou e teve dois filhos, uma menina e um menino. O cearense de sotaque carioca “não queria morar na favela”, mas a sogra insistiu para que se juntasse à família. Terminou então o curso de contabilidade na escola Bahia e foi estudar estatística na Fundação Getúlio Vargas.

Dentro da loja de Agamenon dos Santos, no Morro do TimbauFoto deCélia Lamarão

Seu José Evaristo fez-lhe chegar o convite para ser secretário da Associação de Moradores do Morro do Timbau. Pouco tempo depois, ao ver a “desorganização natural de uma favela”, Agamenon foi eleito presidente. “E aí começaram as lutas.” Foram 32 anos à frente da associação que levou ao Timbau o acesso a pontos de abastecimento de água, eletricidade e até auxílio funerário. Para Agamenon, que levou “muita borrachada da polícia”, o Morro do Timbau era os “Estados Unidos das favelas”.

Os tempos de “presidente” ficaram para trás. Hoje, com 77 anos, Agamenon passa os dias com a D. Dinda na loja que ergueu em frente a casa, no Morro do Timbau. Mais conhecida como a “budega”, na tendinha do senhor Agamenon pode dizer-se que há de tudo um pouco, desde biscoitos de "polvilho" (farinha de mandioca) a um gato adormecido numa das prateleiras empoeiradas. À primeira vista, atrás do balcão, os feitos dos tempos em que liderava a Associação de Moradores não sobressairiam, não fosse uma longa conversa com o carismático cearense que carrega a Maré no coração e muitas histórias na memória. Como aquela vez em que o seu “pulso de ferro” conseguiu que ligassem a energia elétrica do bairro.

início

próximo capítulo