Carlos Pinto

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As mãos na água, a cabeça no mar

O título do livro de Mário Cesariny podia ser um dos lemas da vida de Frederico Morais. Ele tem as mãos na água de cada vez que toca na prancha, no fato, num abraço ao pai ou no cabelo com sal e aloirado pelo sol. Que são muitas vezes, porque a cabeça de Kikas está sempre no mar e nas ondas desde que a mãe, à beira da água, o viu, pela primeira vez, a pôr-se de pé na prancha, aos 7 anos

Reportagem Diogo Pombo
Fotografia Nuno Botelho
Vídeo João Santos Duarte
Grafismo de vídeo João Roberto
Web design Maria Romero
Infografia Carlos Esteves

Reportagem Diogo Pombo Fotografia Nuno Botelho Vídeo João Santos Duarte Web design Maria Romero Infografia Carlos Esteves

Frederico Morais tem 25 anos, é de Cascais, é surfista e, a partir desta semana, é o único português a competir no circuito mundial de surf. É onde sempre quis chegar desde que, com 14 anos, percebeu que já era melhor do que quase todos os que tinham 19 ou 20. Ele e os pais, que o viam da praia, da água, do carro e dos aviões em que o levavam aos sítios onde o surf é maior do que era em Portugal, quando começou a ser pequeno demais para o filho. Frederico preparou-se para estar entre os melhores com dias parecidos ao que a Tribuna Expresso passou com ele - muay thai, ginásio e duas idas ao mar, com ou sem esta ordem.

Não é um bom dia. A vida no mar corre-lhe mal e ele quer chegar ao carro, sentar-se, encostar a cabeça, tapar as orelhas com música e fechar-se na bolha. O miúdo que odeia perder e tem mau perder, porque “não há pior coisa do que perder”, perdeu. Frederico não quer pensar sobre o que correu mal, muito menos ouvir alguém dizer-lhe que correu mal.

Só quer ir para casa.

Tem pressa a arrumar a prancha e o fato pelo porta-bagagens dentro; quer entrar no carro, fechar a porta, por os phones e adormecer. Ou, pelo menos, fingir que adormeceu. Encosta a cabeça e cerra os olhos, mas sabe que vai ter de ouvir a pessoa que está ao lado com as mãos no volante.

– Não, não, não, tu não vais dormir. Vieste aqui, não fizeste o teu trabalho, portanto vais acordado como eu para perceberes o esforço que fiz para te trazer aqui e voltar a levar a casa.

Custa-lhe ouvir estas palavras e as que se seguem. Frederico, ainda com o cabelo húmido do sal, destapa os ouvidos, mantém-se acordado, resigna-se, escuta as verdades que doem e não as mentiras que aliviam. Lá fala, mas contrariado, e quando se cala e fecha os olhos, o condutor volta ao mesmo. Explica-lhe o que fez mal nas ondas que o mar lhe deu, as que surfou para perder em vez de ganhar.

– Eu sabia que ia levar na cabeça ou ter de falar sobre o heat que perdi.

Sentado num chão de cimento, rindo e sorrindo, Frederico Morais recorda os anos em que as viagens para casa não eram fáceis. Atrás dele está a praia do Guincho, de onde saía naqueles dias com o fato a cobrir-lhe o corpo, sabendo que à espera no carro estava a pessoa que não o deixava dormir. A mesma pessoa que foi às compras de uns pés de pato e de um fato quando Frederico era miúdo, para poder aguentar o frio do mar do Guincho e nadar com barbatanas nos pés.

Frederico Morais teria na altura cinco ou seis anos, idade que não lhe chegava para se deitar na prancha de surf e remar com os braços para apanhar o embalo das ondas. Sozinho não tinha força. Não conseguia chegar onde elas mais se erguem, longe do sítio onde rebentam em espumas brancas; o sítio onde, dias antes, conseguiu pôr-se de pé em cima da prancha, com a mãe a vê-lo à beira-mar.

Ficou “todo excitado” com a proeza.

Isso aconteceu no verão seguinte a receber uma prancha de bodyboard. Aconteceu quando a pessoa do carro conheceu Dora Gomes, uma portuguesa que fazia vida das ondas e nelas vivia deitada. Dela recebeu o que deu a Frederico e ele, minúsculo e com bóias nos braços para o manterem a flutuar na água do Algarve, fez o que não era suposto – levantou-se. Pôs os pés em cima de uma prancha feita para acolher barrigas.

É-lhe natural, ele gostou, por isso foi ao peditório: uma prancha na qual seja suposto estar de pé. A pessoa do carro ouviu-o e ofereceu-lhe aquele pedaço de fibra que o deixará, depois, “todo excitado” naquele dia no Guincho, com a mãe à beira-mar.

Mas Frederico ainda era pequeno, o corpo pedia apoio e a pessoa que o guiava fazia tudo para vê-lo feliz : o fato, os pés de pato e um empurrão para se fazer às ondas na primeira prova em que participou.

Tinha sete anos, mas não competiu ao lado de crianças e sim contra miúdos mais velhos do que ele com quem ainda hoje se dá. Correu mal. Foi o pior. Perdeu.

– Éramos sete dentro de água. Fiz uma interferência, mas pronto, valeu pela experiência. Recebi uma medalha, acho que ainda hoje a tenho guardada em casa.

Nesse dia, a viagem de carro foi boa.

Frederico com o pai

O Frederico Morais que relembra tudo isto que passou tem hoje 24 anos. Acabou de se qualificar para o circuito mundial de surf, está onde apenas um português esteve antes dele. Já é o expoente de uma modalidade de mar que, em Portugal, começou a dar pulos ao mesmo tempo que ele crescia.

Frederico odeia perder e tem memórias da primeira derrota, mas não se recorda de quando, como, nem onde venceu pela primeira vez.

– Só sei que era muito pequenino.

E também se lembra de quem estava ao lado dele, da pessoa que é “o porquê disto tudo”.

Lembra-se do pai.

OS PONTAPÉS, OS SOCOS, AS COTOVELADAS É de manhã, são nove e meia, e está fresco. O vento ligeiro que sopra por ali esfria a sensação dos 12 graus. Um carro estaciona à porta do Grupo Dramático e Sportivo de Cascais e dele sai Frederico, vestido com calções, t-shirt e um boné a tapar-lhe o cabelo aloirado pelo sol.

Parece imune ao frio.

Não está sozinho. Carlos Pinto, o fotógrafo que o acompanha há muitos anos, chega com ele. Diz aos jornalistas que o cumprimentam qual o caminho a seguir; está com pressa.

Aproximo-me, faço por apanhá-lo, quebrar o gelo. Cumprimentamos esquinas, afagamos corredores e damos palmadas nos degraus de escadas. Ele nem um palmo de conversa dá, quer entrar na sala onde tem alguém à sua espera.

– Entrem, estejam à vontade.

Nuno Neves estica o braço e entrega um passou-bem. Está descalço, também de calções e t-shirt, enérgico como quem vai buscar pilhas às manhãs.

É instrutor de muay thai.

Frederico acelera o ápice com que se põe a saltar à corda, mecânico. São cinco minutos que antecedem os dez em que se ocupa num circuito com quatro exercícios. Um pneu, um degrau (step), argolas deitadas no chão e uma semi-bola (bosu), redonda em baixo e plana em cima. Salta, sobe, rodopia, faz trocas de pés, aquece o corpo num treino funcional que puxa pelo equilíbrio e a coordenação. Mantém-se sério, concentrado, focado no que Nuno o instrui a fazer. Não parece suar e apenas o fará quando Nuno lhe envolver as mãos com ligaduras e as cobrir com luvas. Malandro na voz, vai falando do momento para o qual se preparam, aquele em que “a adrenalina começa a subir dentro do corpo”.

Vão para o ringue.

O quadrado está ao canto do ginásio, que é uma sala retangular, comprida. As paredes ao longo têm janelas de vidro e espreitam, de um lado, para um pavilhão, e do outro para um campo de relva sintética. Há luvas arrumadas aqui e espalhadas acolá. O chão é fofo. Há sacos, grandes e pesados, pendurados no teto, e fazem companhia a umas quantas fotografias de campeões que passaram por ali.

Frederico Morais tenta vir aqui três vezes por semana, nas raras alturas em que assenta mais do que sete dias seguidos em Portugal. Vem quase sempre de manhã.

Quando entra no ringue, Frederico é mãos, pernas, punhos, pés e cotovelos. Não é o que esperamos ver num surfista, mas ele diz que funciona.

– A calma, a agressividade, o coordenar tudo ao mesmo tempo, a respiração, o meter a força com a técnica. Acho que tem muito a ver com o surf na força em muitos dos movimentos que fazemos. Esquivar, ir a abaixo, subir, descer, ter muita força no tronco e nas pernas.

Dentro do quadrado, a lei está nas ordens e nos gestos de Nuno que dirige Frederico como um titereiro, neste caso sem fios ou cordas. A voz de comando é suficiente.

Os pontapés saem-lhe com força. A perna, esticada e embalada contra a gravidade, chega à altura da cabeça de Nuno. Os ossos da canela e do pé batem nas proteções de borracha, com estrondo. O som é seco, como a pancada, e ecoa na sala.

Pum, pam, pum.

Frederico é uma marioneta que ataca ou se esquiva. Um soco ou uma combinação rápida de vários. Um pontapé frontal, com a planta do pé. Um balançar do corpo para se desviar de golpes alheios, que são perguntas que ativam o instinto de respostas imediatas.

Ele desvia-se, baixa-se enquanto dá passos para o lado, flete muito os joelhos. Murros, cotoveladas e pontapés. Mãos, braços e pernas. Bater e tentar não ser batido.

Pum, pam, pum.

A guarda em cima, a atenção em tudo. As mãos. “Todo o sofrimento faz parte do nosso alimento”, lê-se, escrito a caneta, na frente de uma das luvas, entre assinaturas e outras frases.

Nuno fá-lo sofrer com o ritmo que lhe impõe. Ele continua a esquivar-se, a mexer-se, a abrandar e a acelerar. Mãos, braços e pernas. São dez minutos de muay thai até pararem.

O suor já escorre pela cara de Frederico. Ele respira fundo. Prende as mãos a uma das cordas do ringue e deixa cair o corpo. Fica um esquadro em repouso num ângulo de noventa graus. Está ofegante, quase exausto, não larga a corda durante uns bons segundos.

– Vocês não querem acreditar, mas se o Kikas fizesse muay thai, também era campeão do mundo. Coragem? E quem é que a tem para se meter nas ondas a que ele vai?

Nuno é o único que consegue falar dentro do ringue, porque Frederico continua em baixo, apoiado nas cordas. Não reage. Ouve-se a música que, pouco antes, Nuno põe a tocar no ginásio – eletrónica, acelerada.

– Há alturas em que lhe digo que vou arrancar o Titanic de dentro dele.

Um barco, a água, a primeira referência a mar.

Frederico Morais ergue-se e põe-se direito. Já sorri.

A CABEÇA QUE NÃO REMÓI Não era preciso ouvir Nuno picá-lo, à boa maneira, para mostrar os dentes. Kikas, alcunha que lhe foi colocada por uma prima que não conseguia dizer “Frederico”, adora estar ali. A força que o muay thai lhe exige é muita da que usa dentro de água e em muitos movimentos que faz numa onda.

– Torna as coisas mais fáceis.

Está calmo e sente o corpo solto, a descansar.

O treino acabou.

A voz e o ritmo pausados com que fala são sintomas de ponderação. Ele não se acha uma pessoa nervosa, ou que fique muito irritada e nem se recorda de ir para ali dar socos e pontapés, frustrado. Chateado, sim.

– Às vezes venho aqui, bato um bocado no saco e relaxo. Ajuda-me a crescer, a conhecer-me melhor e a desenvolver mais o meu corpo.

O corpo exercita, a cabeça foca-se, a mente é libertada.

Os dias que já passou ali são tantos quantos os pontapés que deu. Não sabe ao certo quando começou no muay thai. A memória chega até ao ponto em que era “pequenino” e já fazia surf; o que ele não se esquece é de quem o apresentou ao instrutor: o pai.

Nuno acha que isso terá acontecido quando ele tinha nove anos.

Kikas nunca sentiu receio de puxar pelo físico em algo que implica trocar golpes e tentativas de imobilização com outra pessoa. Sente o mesmo quando está no Hawai e as ondas que tem à frente são monstros que, no tamanho, o batem em vários metros – sente respeito. Nunca deixou de entrar em qualquer mar por o achar grande demais. Já sentiu, e sente, “nervoso miudinho”, porque ninguém gosta de se magoar, como daquela vez em que caiu e ficou com 14 pontos cabeça e outros tantos nas costas. Tinha 14 anos.

Do muay thai nunca saiu maltratado.

Não há vivalma que nasça com medo. Está tudo na cabeça. É por ela que Nuno Neves puxa, fortalecendo-a com palavras tanto quanto exercitam o cérebro e corpo.

– Estás cansado, estás exausto, mas não perdeste a tua concentração e o teu objetivo. Eles estão a fazer cada vez melhor, mas não vão chegar perto de ti. Olha para mim como se estivesses a olhar para a onda.

E Frederico olha e responde, e esforça-se e reage. Ele fala no muay thai como “um complemento” de que precisa para ser quem é – um surfista. Tem de se fechar antes, durante e depois de estar no mar. São estas as alturas para as quais Nuno Neves o prepara, mas em que nunca está presente.

– Eu não trabalho o Kikas para ele disputar um título de muay thai. Trabalho-o para ele se focar. Se ele se concentrar aqui, agora, quando chegar ao mar, não tem mais pressão do que isto.

Tudo depende de Frederico, que se ensinou a largar as manias que tinha, uma delas a de não fazer a barba antes de um campeonato. Aprendeu a ser “zero supersticioso” e a deixar “as coisas parvas” em que vê um ciclo de vício fácil.

Prefere rotinas: faz sempre o mesmo, ouve sempre a mesma música, reage sempre da mesma maneira.

Começa a vestir o fato dois heats e meio antes de chegar a vez dele de entrar na água. É uma antecedência, mais ou menos, de uma hora e quinze minutos.

– Meio heat para me vestir, um heat para ouvir música, e metade do heat antes do meu para olhar para o mar e estar a falar sobre o que tenho de fazer.

Tem canções que gosta de ouvir consoante os sítios e as ondas dos lugares onde está a competir. Tenta, sempre, sair da água melhor do que quando entrou, seja a brincar ou a competir.

– Ou, pelo menos, com esse feeling. A acreditar nisso. Estou sempre focado em melhorar alguma coisa. Rodar melhor, estar mais perto de aterrar um aéreo, alguma coisa positiva.

Garante que a sua norma é encarar tudo de forma “muito séria”.

Confessa que às vezes ainda fica nervoso, e frustrado, quando sabe que tem de fazer com que certas coisas aconteçam – e depois estas coisas não acontecem.

Há dias em que tenta, rema, apanha, falha, tenta de novo, falha outra vez. Cai. Não aterra o aéreo. Sente-se preso. Apanhou a onda errada. O mar tem pessoas a mais à frente.

A cabeça pensa em tudo. Nestes momentos, Nuno Neves e o muay thai não estão por perto, mas dentro de Frederico.

– Hoje em dia, controlo-me melhor.

Ele aprendeu a tornar a cabeça imune ao que não lhe faz bem. Fechou-se ao que não interessa e aprendeu a reagir à frustração. Ensinou-se a engolir o que não lhe sabe bem em vez de arranjar forma de o mastigar.

– Quando tenho um bichinho na cabeça, aprendi a lidar com ele, a arrumá-lo e partir para outra. Se não o faço, começo a remoer, a pensar no que podia ter feito, e isso não dá. Vou estar a jogar contra mim próprio.

Frederico não se abre com facilidade a quem pouco lhe diz. Gosta de passar tempo sozinho ou de ter à volta as pessoas de quem gosta, as que lhe dizem muito.

Como aquelas que, na maior parte das vezes, estão com ele naquele ginásio. É ali que se riem, que se divertem, que falam e que suam.

É o círculo dele.

A PRAIA DELE, AS OUTRAS E O QUE FAZEMOS COM AS NOSSAS Frederico vai ter com um volante. O carro cheira à cera que os surfistas amassam sobre a prancha para os pés não escorregarem. Dá-nos boleia até ao sítio onde vai quase sempre, sozinho ou acompanhado, findos os socos e os pontapés. O bom pequeno-almoço é uma taça em que o acaí predomina sobre os morangos, a banana e os cereais. Demora a comer. Prolonga a morosidade com o telemóvel, a que recorre para averiguar onde pode e deve ir a seguir.

O tamanho da ondulação, os metros com que as ondas chegam à praia, a direção das mesmas, o lado para onde o vento sopra, o ponto cardeal para o qual a praia está virada, as horas a que a maré se enche e encolhe.

Estas são as contas e as coisas que lhe ditam os dias.

Hoje, estão más e não o ajudam. Decide ir para o Guincho. É a praia que tem mais perto de casa, a que Frederico guarda mais perto. Tem ali a água em que o pai remava por ele. A areia em que a mãe torceu para ele se erguer em cima de uma prancha com o dobro do tamanho. O sítio onde o pai o filmava para depois verem na televisão de casa o que ele fazia ou podia ter feito.

Frederico conhece esta água, sabe que “tem as suas manhas”, fala das correntes que “não a tornam fácil”, à medida que despe as calças e a camisola que foi buscar a casa para vestir o fato que o protege do frio do mar.

Fica na água cerca de uma hora. Mais tempo do que esperava. As ondas, grandes e desordenadas, quebram com pressa, a corrente brinca muito com ele. Está habituado. Apanha mais de dez massas de água, rasga-as para um lado, corta-as com manobras. Pede para entrar e sair de um tubo, numa delas.

O Guincho não é apenas o lugar onde se pôs de pé na prancha, onde foi último classificado na primeira competição, onde ficam as ondas que surfou em todos os escalões que conquistou (com 14 anos já era o melhor nos sub-21), e onde confirmou o primeiro título de campeão nacional em 2013.

O Guincho é mais do que isso. O Guincho é o lugar de Frederico Morais.

E o Guincho foi-se tornando pequeno para o surf que havia em Kikas.

O jeito e o talento que o rapaz tinha cresceram muito porque casaram cedo com o método, o esforço, o hábito e a dedicação ao desporto da família em que nasceu. O pai, amigo da natação, levava-o em bebé para os balneários com cheiro a relva e sons de pitons de alumínio de onde saía para ser campeão nacional de râguebi. Ele e o irmão, Tomaz Morais, tio de Frederico, que veio a ser selecionador nacional do jogo da bola oval.

O desporto, a cultura de ser melhor e o ir ter com os sacrifícios que são precisos para o ser, sempre moraram lá em casa.

Kikas não arranja bem as palavras para o explicar, mas diz que, se não fosse surfista, era de certeza outra coisa que implicasse competir.

– Não sei, tenho algo aqui dentro, é difícil de explicar. É o desporto.

Nunca o jogou a sério, mas adora râguebi. Dá-lhe gozo ver. Não liga muito ao futebol jogado das discussões, dos penáltis, dos árbitros, das falas. Gosta de o jogar, embora raramente o faça. Uma vez, com os amigos, fez uma entorse e durante um tempo teve dores a surfar.

– Não vale a pena correr o risco só para estar uma hora a fazer aquilo, em qualquer modalidade que seja. Tenho um azar e depois digo o quê? Não vou a um campeonato porque me magoei a jogar ténis? Não faz sentido.

Frederico, dizem o pai, o tio e o professor de muay thai, seria sempre o melhor no que decidisse fazer.

Ele decidiu ser surfista.

Daí à decisão que os pais tomaram passou pouco tempo. Três ou quatro anos depois de os pés de Kikas se plantarem numa prancha, a família começou a viajar. O Natal e o aniversário dele no calor do Havai, a Páscoa na Austrália, as idas às Maldivas.

Eram quase dois meses por ano que Frederico, pequeno, loiro e feliz da vida, passava longe de casa e perto de sítios onde o que ele pratica, faz parte da cultura. Habituou-se a viagens longas e a ir à procura do conforto noutras paragens.

– Se queremos evoluir, temos de sair daqui e procurar voos mais altos.

A família foi escapando do país que tem as praias, as ondas e as centenas de quilómetros de costa, mas que acordou tarde para a modalidade que só em 1997 começou a contar o número de atletas federados. Do Portugal que apenas em 2011, quando um americano (Garrett McNamara) foi à Nazaré surfar a maior onda alguma vez surfada, e um português (Tiago Pires) ia a meio da primeira aventura de alguém deste país no circuito mundial de surf, ultrapassou os 2.000 surfistas inscritos na Federação Portuguesa de Surf. Uma entidade que, ainda hoje, não isola os números relativos ao surf, porque “tutela oito desportos” no pedaço de terra onde o mais recente estudo para quantificar os praticantes de surf aconteceu há cinco anos. Nessa altura, estimou-se que eram pouco mais de 210 mil.

Número de praticantes de surf federados
Gráfico interativo
Período em que Tiago Pires competiu no circuito mundial de surf (2008 - 2014)

FONTEIPDJ E PORDATA

Mas hoje, ali no Guincho, Frederico é único na água.

Como terá sido dos poucos a ter uma família que viajava pelo filho. Ele, os pais e a irmã iam ter com ondas diferentes, com surfistas melhores e com gente que percebia mais de surf.

Kikas fala dos sítios “lindíssimos” e do à-vontade que ganhou para as longas viagens que o levavam lá. Fez amigos, entranhou culturas, evoluiu no surf e ganhou disciplina com as férias que a mãe não queriam que fossem apenas isso.

– Arranjava-nos sempre uma professora de inglês, para o começarmos a falar e a perceber. Todos os dias, ao final da tarde, eu e a minha irmã tínhamos uma hora de inglês.

Tinha de honrar “o compromisso”, compensar as aulas que deixava em Portugal. E as saudades também, porque não as sentia. Estava com o pai, a mãe, a irmã. Eram boas férias.

Aos 10 anos fez a primeira viagem sem os pais, quando a mãe o levou até ao aeroporto, pela mão, e o deixou com Carlos Pinto, o fotógrafo que é mais do que um amigo para ele. Aos 14, embarcou num avião sozinho, pela primeira vez, para chegar à Indonésia.

– Não estava ninguém à espera no aeroporto, apareceu só um indonésio que não conhecia, era tudo novo para mim. Não percebia nada, o meu inglês não era fenomenal. O indonésio levou-me para o hotel e fiquei meio à toa, porque não via ninguém da Billabong, não sabia se já tinham chegado. Só saí do quarto para comer e ligar à minha mãe, preocupado.

Fez amigos lá fora, mas só um, Ryan Callinan, surfista australiano, é bom e próximo como os que tem por cá.

Ele ganhou calo com a distância, as viagens melhoraram-lhe o surf e Frederico, pessoa e surfista, foi evoluindo.

Aos 24 anos passa mais tempo com ele próprio. No mar, não o incomoda. A vida de um dos 32 melhores surfistas do mundo é solitária. Ele, a família e a namorada sabem-no. Hoje passa mais tempo com Richard Marsh, o treinador, do que com eles. Mas é à mãe que confia o trato de tudo quanto é dinheiro, porque a mãe “tem jeito, gosta e faz o melhor que pode”. E também ao pai que telefona primeiro, depois do que seja, por ser a pessoa com quem mais fala e de quem vai sempre ouvir as verdades que, às vezes, lhe custam.

Como as que ouvia à saída do Guincho na companhia do pai depois de um dia mau.

Hoje é diferente. Hoje é um bom dia e ele entra no carro, senta-se, põe música e volta para a sua bolha. O Kikas que odeia perder e tem mau perder, já ganhou muita coisa entretanto. E vai continuar a ganhar.

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