CRONOLOGIA

Uma vida mexida e preenchida: cronologia obrigatória da vida de Soares

Antigo Presidente Mário Soares viveu quase um século repleto de ação. Há cronologias de consulta obrigatória – esta é uma delas

ANABELA NATÁRIO, CARLOS PAES E JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA

1924

A 7 de dezembro nasce Mário Alberto Nobre Lopes Soares. Na casa paterna, na Rua Gomes Freire, 153-2º Esq., em Lisboa. A mãe, Elisa Nobre Baptista (1888-1955), era mulher de poucas letras. O pai, João Lopes Soares (1878-1970), fora sacerdote católico e tivera uma vida política intensa, chegando a ser ministro das Colónias de um governo da I República.

Mário Soares

1928

A família muda-se para o Monte Estoril, onde o pai e outro pedagogo abrem um colégio chamado Bairro Escolar do Estoril, onde faz uma parte do ensino primário. Seguem-se os colégios Nuno Álvares, na Venda do Pinheiro, e D. Diniz, nas Caldas da Rainha, onde vive com a família Maldonado Freitas.

Mário Soares com os pais

1936

João Soares obtém o alvará para a abertura do Colégio Moderno, na Estrada de Malpique (que hoje se chama precisamente Rua Dr. João Soares), em Lisboa. É lá que o jovem Mário faz o ensino secundário, do segundo ao sétimo ano, em aulas mistas, embora os recreios fossem separados.

1937

Morre, em Paris, Afonso Costa, uma das grandes figuras da I República e amigo de João Soares. Durante uma semana, Mário acompanha o pai e os dois meios-irmãos (Tertuliano e Cândido) no uso da gravata preta. Em casa, segue a evolução da Guerra Civil de Espanha (1936-39) através da Rádio Madrid, que defende as posições republicanas.

1941

Ao findar o liceu, o pai põe-no em contacto com três homens que o ajudam a moldar em termos culturais: Álvaro Salema, o professor de Filosofia; Agostinho da Silva, professor de Literatura e contratado para lhe abrir o espírito; e Álvaro Cunhal, prefeito no colégio e que lhe dá explicações de Geografia.

Álvaro Cunhal

1942

Matricula-se no curso de Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras de Lisboa. Influenciado por Cunhal, é recrutado para o PCP por Guilherme da Costa Carvalho. Na faculdade, o primeiro controleiro, na Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas, é o colega Jorge Borges de Macedo. Outros colegas são Joaquim Barradas de Carvalho, António José Saraiva e Joel Serrão.

1943

Convidado a participar no congresso do PCP, realizado na clandestinidade. Temendo que seja um primeiro passo para também ele entrar na clandestinidade, recusa. É substituído no congresso por Octávio Pato, que nunca mais largará o partido, de que chegará a ser o número dois.

1945

No dia em que finda a II Guerra Mundial (8 de maio), lidera uma manifestação saída da faculdade e que, no Rossio, junta "um mar de gente". No dia seguinte, faz o seu primeiro discurso às massas, num novo cortejo com destino às embaixadas dos EUA, Inglaterra e França - as três potências que, juntamente com a URSS, venceram a guerra.

 

Em outubro, participa, no centro republicano Almirante Reis, na reunião que funda o Movimento de Unidade Democrática (MUD), de carácter "paralegal", que junta praticamente todos os sectores de oposição à ditadura. Pouco depois nasce o MUD Juvenil, de que é um dos principais líderes.

1946

Um documento do MUD pronuncia-se contra a entrada de Portugal na recém-fundada ONU. Todos os signatários são presos, o que lhe vale o primeiro contacto com a polícia política, a PIDE, tendo sido libertado sob fiança. Meses depois, intervém pela primeira vez num comício, realizado na Voz do Operário, em Lisboa, para assinalar o 5 de Outubro.

1947

A quase totalidade das direções do MUD e do seu braço juvenil volta a ser detida, com a novíssima geração a recusar a liberdade sob fiança. Um dos companheiros de cárcere é o já pintor Júlio Pomar, igualmente militante comunista. Outro é Francisco Salgado Zenha, o ex-líder da Associação Académica de Coimbra.

1948

Torna à cadeia, juntamente com a comissão central do MUD, que tinha em preparação uma manifestação alusiva ao 31 de Janeiro. Uma prisão inesquecível, na medida em que partilha a mesma cela do Aljube com o pai, detido por envolvimento na tentativa de insurreição de 10 de abril de 1947, do general Marques Godinho. Um outro detido é o jovem advogado Adriano Moreira.

1949

O general Norton de Matos é o candidato da oposição às eleições presidenciais. Por sugestão de Mário Azevedo Gomes, diretor da campanha, Soares, com apenas 24 anos, é o secretário pessoal de Norton de Matos, de 83 anos. Quando informa o candidato que é militante do PCP, é imediatamente afastado do cargo.

 

As eleições presidenciais realizam-se a 12 de fevereiro. Mário Soares é preso no dia seguinte. No posterior julgamento da comissão central do MUD Juvenil, sofre a única condenação judicial: três meses de prisão e perda de direitos políticos por cinco anos. Ao todo, somará uma dúzia de prisões.

Na prisão, casa-se a 22 de fevereiro com Maria de Jesus Barroso, que conhecera na Faculdade de Letras e com quem namorava desde 1945. Atriz no Teatro Nacional D. Maria II, fora demitida por suspeita de ligação ao PCP. O casamento é por procuração, fazendo-se o noivo substituir no registo civil por Rogério de Araújo. O padrinho é o amigo Manuel Mendes, também ele preso…

Mário Soares e Maria Barroso

1950

Em outubro, o PCP anuncia a expulsão de ‘Fontes’, o nome de código de Mário Soares, por "indisciplina" e "derrotismo". Com Cunhal preso, singrara no partido Júlio Fogaça, vindo do Tarrafal e que imprimira uma orientação de grande sectarismo, erradicando numerosos intelectuais, entre os quais Fernando Piteira Santos e Francisco Ramos da Costa.

1951

Ao filho João, nascido em 1949, soma-se a filha Isabel, que tem como padrinho o amigo Salgado Zenha. Conclui o curso de Letras com uma tese sobre o Presidente Teófilo Braga e as origens do pensamento republicano. Viaja pela primeira vez até Paris, que sempre o deslumbrou; assinante da revista "France-Observateur", torna-se "neutralista, nem pró-americano nem pró-soviético".

Mário Soares com os filhos João e Isabel

1952

Impedido pela ditadura de ser professor, aposta na advocacia, o que o leva a inscrever-se como aluno voluntário no curso de Direito da Universidade de Lisboa. Dos professores, elogia especialmente Marcello Caetano e Adelino da Palma Carlos.

1955

A mãe, Elisa Nobre Baptista, morre, com 67 anos. Mário Soares passa então a residir no terceiro andar da casa onde viverá até ao fim da vida (na atual Rua Dr. João Soares, no cruzamento com o Campo Grande).

 

Funda a Resistência Republicana (RR), com Manuel Mendes, Piteira Santos, Gustavo Soromenho, Ramos da Costa, José Magalhães Godinho, José Ribeiro dos Santos, Teófilo Carvalho dos Santos, Catanho de Meneses, alguns dos quais nunca deixaram de o acompanhar. O grupo, que se reúne sobretudo no escritório de Soromenho, nunca deixará de ser "mais do que um sólido grupo de amigos".

1957

Licencia-se em Direito com uma nota final de 13 valores. Faz o estágio de advocacia com Leopoldo Vale, partilhando o escritório, na rua do Ouro, 87-2º, com Gustavo Soromenho, Pimentel Saraiva e Vasco da Gama Fernandes.

1958

Para as eleições presidenciais, o nome que começa por apoiar é o de Jaime Cortesão, mas cedo se apercebe das potencialidades da candidatura do general Humberto Delgado. É um dos dois representantes do Diretório Democrata-Social na Comissão Central de Apoio à Candidatura de Delgado.

1960

No cinquentenário da proclamação da República, um "cortejo cívico" iniciado no cemitério do Alto de S. João, com destino à Câmara de Lisboa, é interrompido pela polícia na Avenida Almirante Reis. Detido pela PSP e entregue à PIDE, conhece finalmente os curros do Aljube, ainda que numa breve estada.

1961

Integra a comissão, presidida por Mário Azevedo Gomes, que redige o Programa para a Democratização da República. Divulgado em maio, são detidos todos os 62 signatários, mais tarde amnistiados. Soares é o que mais pena: seis meses certos, sem culpa formada, o seu maior período de privação de liberdade.

1962

Um dos suspeitos do costume, é detido por alegado envolvimento no golpe de Beja. Sujeito à tortura do sono "por dois períodos, sucessivos, de três dias e quatro noites, cada", é libertado sob caução. No seu escritório, organiza a defesa dos 86 réus do processo, mobilizando 35 advogados - entre os quais alguns jovens acabados de se licenciar como Jorge Sampaio.

 

Faz parte do conselho consultivo de uma nova revista cultural: "O Tempo e o Modo", de que é proprietário e diretor António Alçada Baptista, um dos intelectuais católicos que, juntamente com Francisco Sousa Tavares, empurra insistentemente para a criação de um partido democrata-cristão.

Capa do nº 1 de "O Tempo e o Modo"

1964

A 7 de abril, funda no Hotel Moderne, em Genebra, a Ação Socialista Portuguesa (ASP), juntamente com Manuel Tito de Morais (exilado em Argel e depois em Roma) e Francisco Ramos da Costa (que se refugiara em Paris após o golpe de Beja). "Passámos de um grupo de reflexão" (a RR, que em 1962 passara a designar-se Resistência Republicana e Socialista), para "uma organização parapartidária", que tem como face legal a Cooperativa de Estudos e Documentação.

 

Visita Humberto Delgado num hospital perto de Praga, onde fora operado de urgência. Viaja com um passaporte falso, fornecido pelo PCP, e avista-se com Cunhal, que deixara o país após a mítica fuga da prisão de Peniche, em 1960. Outros países socialistas que visita são Cuba, de Fidel Castro, e a Jugoslávia, de Tito.

1965

Humberto Delgado é assassinado por uma brigada da PIDE, em Espanha. Numa visita a casa da viúva, Maria Iva, Soares oferece-se, juntamente com Abranches Ferrão, para advogado da família - o que contribui para lhe dar uma grande notoriedade. Numa das idas a Espanha, é preso na fronteira, juntamente com os também juristas Abranches Ferrão, Catanho de Menezes e Pires de Lima, e o jornalista Raul Rego.

Humberto Delgado com a secretária Arajaryr Campos, em fevereiro de 1965, perto de Olivença

1967

Estala o escândalo sexual conhecido como "Ballets Rose", envolvendo três membros do governo de Salazar. O caso é denunciado pelo "Sunday Telegraph", cujo enviado a Lisboa falara com Soares; suspeito de ter sido uma das fontes, é preso no seu escritório assim que o jornal chega a Portugal.

Ficha da Pide de 1965

1968

Por decisão do Conselho de Ministros, presidido por Salazar, é deportado, por tempo indeterminado, para o arquipélago de São Tomé e Príncipe. O principal motivo é a sua alegada participação na denúncia do escândalo "Ballets Rose".

 

A 7 de setembro, após cair de uma cadeira de lona, Salazar é operado de urgência ao cérebro. Soares está no barbeiro em São Tomé quando ouve a notícia pela Emissora Nacional. Intuindo que o ditador não sobreviverá, sai a correr da barbearia, aos gritos de "é o fim do salazarismo!".

 

Presidido por Marcello Caetano, o novo Governo fixa em um ano o prazo de deportação de Soares, a partir da prisão inicial (dezembro de 1967). O regresso de São Tomé é antecipado para que possa estar com o pai no dia do seu 90º aniversário, a 17 de novembro de 1968.

1969

Nas comemorações da revolta republicana de 31 de janeiro, é autorizado um comício no Coliseu do Porto, onde Soares fala em público pela primeira vez após a deportação. O discurso é acolhido com vaias por um sector da assistência, ligado ao PCP e à extrema-esquerda: "É sempre a mesma melodia, Soares e a social-democracia".

 

Em junho, Soares estreia-se num congresso da Internacional Socialista (IS), em Eastbourne, acompanhado de Tito de Morais, Ramos da Costa e Gustavo Soromenho.

 

Nas eleições de outubro para a Assembleia Nacional, a oposição apresenta-se dividida em duas frentes: a CDE, em que se destaca o clandestino PCP, e a CEUD, liderada pela ASP. A União Nacional (o partido único) elege todos os deputados. Entre a oposição, a CEUD de Soares é suplantada em Lisboa pela rival CDE.

1970

Desiludido com os resultados eleitorais, faz um longo périplo pelas Américas: Brasil, Venezuela, México, EUA. Em abril, dá uma conferência de imprensa em Nova Iorque, a que se segue um debate no Conselho da Europa. As suas declarações valem-lhe mais um processo, acusando-o de "traição à pátria". Incorrendo numa pena de 8 a 12 anos de prisão, opta pelo exílio, em Paris.

 

Morre em Lisboa, com 91 anos, o pai João Soares. Recebe a notícia em Itália e, apesar de estar exilado, decide ir ao funeral. "A única precaução que tomei foi avisar alguma imprensa internacional". Terminadas as exéquias, a DGS dá-lhe quatro horas para deixar o país. Retoma o exílio, o que é noticiado pelo "Le Monde".

1972

Publica, na editora Calmann-Levy, de Paris, o livro "Le Portugal Baillonné". O título é escolhido pelo editor Alain Oulman, um dos mais conhecidos compositores de fados para Amália. Iniciado em São Tomé logo após o fim do salazarismo, e escrito praticamente de memória, a versão portuguesa ("Portugal Amordaçado") só será editada depois do 25 de Abril, pela Arcádia.

 

Em França, ensina em três universidades (Vincennes, Rennes e Sorbonne-Paris IV) e é contratado pelo empresário Manuel Bullosa como consultor jurídico do Banque Franco Portugaise. Colabora assiduamente em várias publicações — no jornal "República" assina com o pseudónimo de Clain d’Estaing.

1973

O PS nasce em abril, num congresso na cidadezinha alemã de Bad Münstereifel, que decide a transformação da ASP em partido. A organização do encontro é assegurada pela Fundação Friedrich Ebert, ligada ao Partido Social-Democrata (SPD). Soares é eleito secretário-geral.

Fundação do PS em Bad Münstereifel, na Alemanha. Mário Soares, Maria Barroso e Tito de Morais, entre outros

Nas eleições de outubro, e ao contrário do que acontecera em 1969, PS e PCP unem esforços numa única frente, o MDP/ CDE, que desta feita não vai às urnas, por falta de condições mínimas de liberdade. Meses antes, e encorajados pela dinâmica do Programa Comum de Governo celebrado em França, Soares e Cunhal enterram temporariamente o machado de guerra.

1974

Nos primeiros dias de março, escreve no "Le Monde" um artigo intitulado "Caem as máscaras em Portugal" - a propósito do clandestino Movimento dos Capitães, que virá a transformar-se no Movimento das Forças Armadas. A 16 de março, quando fracassa a sublevação militar das Caldas da Rainha, é entrevistado em direto para a televisão francesa.

 

A 24 de abril está em Bona, com Maria Barroso, Tito de Morais e Ramos da Costa, para conversações com o SPD, no poder. Para a manhã de 25, tem agendada uma reunião com o chanceler Willy Brandt, que já não se realiza. Assim que é informado do golpe dos capitães, Soares volta para Paris, já a pensar no regresso a Portugal.

1975

O PS faz um comício contra a unicidade sindical. Mário Soares, já reinstalado no país, está à cabeça da iniciativa do partido, o que lhe valerá ser impedido de subir à tribuna do Estádio 1º de Maio para celebrar o Dia do Trabalhador e ser acusado de "atitudes divisionistas". Ainda em janeiro, viaja até ao Algarve para assinar o Acordo de Alvor entre Portugal e os movimentos de libertação angolanos, FNLA, MPLA e UNITA. Pouco depois, toma posse como ministro sem pasta do Governo Provisório, liderado pelo militar comunista Vasco Gonçalves.

 

Acaba o ano a receber o Prémio Joseph Lemaire, em Bruxelas, e a negociar com o Governo da República Federal da Alemanha um empréstimo a Portugal, em Bona, onde, meses antes, numa cimeira do SPD, dissera: "A passividade dos EUA pode transformar Portugal numa espécie de Cuba da Europa." Acusa o PCP de ter fomentado o 25 de Novembro, usando a extrema-esquerda como ponta de lança, e o PPD (PSD) de "anticomunismo retrógrado".

1976

Logo à entrada do ano, é publicado o livro "Portugal, Que Revolução?", uma compilação das suas entrevistas à jornalista francesa Dominique Pouchin. É indigitado pelo Presidente da República Ramalho Eanes e toma posse, sete dias depois, a 23 de julho, como primeiro-ministro do I Governo Constitucional.

Primeiro-ministro do I Governo Constitucional

Em outubro, é reeleito secretário-geral do PS, no II Congresso do PS, e em novembro será vice-presidente da Internacional Socialista. É ainda "cicerone" nas visitas a Portugal do Presidente da Jugoslávia marechal Tito, do presidente do Conselho de Ministros da CEE Max Van der Stoel e do primeiro-ministro espanhol Adolfo Suárez. E estreia-se no papel de avô com Maria Inês, filha de João Soares.

1977

Faz dois périplos pelas capitais dos países da CEE para convencer a Comunidade Económica Europeia das razões do pedido de adesão de Portugal. Vai aos EUA para receber o mais alto galardão da Liga Internacional dos Direitos Humanos e discutir a situação económica portuguesa, que já tentara debelar com uma série de medidas, entre as quais a desvalorização do escudo em 15%. Em junho, a Universidade de Rennes concede-lhe o doutoramento "honoris causa". Em agosto, volta a atacar o PCP, acusando-o de fazer "chantagem antidemocrática" sobre o chefe de Estado.

 

A dois dias de acabar o ano, volta a ser encarregado por Ramalho Eanes de formar governo, pois o I Governo Constitucional foi derrubado na Assembleia da República com o chumbo, pelo PCP, CDS, PSD e UDP, da moção de confiança por si apresentada.

1978

Volta a tomar posse como primeiro-ministro. Assina, com o seu homólogo espanhol Adolfo Suárez, o Tratado de Amizade e Cooperação entre Portugal e Espanha. No mês de julho, a política está outra vez ao rubro: Soares, após uma audiência com Ramalho Eanes, afirma recusar demitir-se e pede a dissolução do Governo Regional da Madeira face aos ataques de Alberto João Jardim às Forças Armadas. Dois dias depois, é surpreendido pelo Presidente, que o exonera por considerar que o Executivo já não tem base política de sustentação. Entra em colisão com Eanes, considerando que este, já no discurso de 25 de Abril, fornecera "uma arma colossal à direita para desestabilizar o processo político". Mas, no final do ano, admite, numa entrevista à RTP, que o PS deverá apoiar a recandidatura de Ramalho Eanes à Presidência.

Com Ramalho Eanes

1979

Março será o seu melhor mês: é reconfirmado no cargo de secretário-geral do PS e vê o seu documento "Dez Anos para Mudar Portugal - Proposta do PS para os Anos 80" ser aprovado. No mês seguinte, numa entrevista ao "Diário de Notícias", verbaliza o que já dera muitas vezes a entender: não haverá alianças com os comunistas. Até ao fim do ano, faz uma série de viagens: vai aos EUA, onde é recebido pelo vice-presidente Walter Mondale; a Paris, a convite do seu amigo François Mitterrand, Presidente francês; à Nicarágua; e ao Equador, chefiando uma delegação da Internacional Socialista. E acaba por mostrar alguma abertura para celebrar pactos pontuais com partidos parlamentares depois das eleições intercalares.

1980

O anúncio oficial é feito em agosto, após meses de negociações: o PS apoia a recandidatura de Ramalho Eanes à Presidência. Mário Soares é um dos proponentes, mas deixará de o ser ao ouvir o candidato defender o modelo de sociedade preconizado pela Aliança Democrática (AD). Por esta razão, autossuspende-se do cargo de secretário-geral do PS, mas o partido não retira o apoio a Eanes. Este será reeleito a 7 de dezembro, e Soares retomará as funções partidárias três dias depois.

1981

Reafirma que os socialistas estarão na oposição até às legislativas de 1984, é reeleito secretário-geral do PS, normaliza as relações com o Presidente Ramalho Eanes e acaba com a coligação eleitoral Frente Republicana e Socialista (FRS). Depois de acusar o Governo da AD de ser incapaz de ultrapassar o impasse nas negociações para a adesão à CEE, termina o ano a rejeitar um acordo com o PSD para as autárquicas e a admitir a possibilidade de ser necessário realizar eleições gerais antecipadas.

1982

Os líderes dos quatro principais partidos participam num debate na RTP. Mário Soares, Pinto Balsemão, Freitas do Amaral e Álvaro Cunhal entram em cena com 40 minutos de atraso, o tempo que levou a porem-se de acordo com as questões a debater... Dias depois, encabeça uma delegação socialista que se reúne com os chefes da coligação de direita para analisarem a revisão constitucional. Um mês após esse encontro, é alvo de um documento crítico por parte de ex-membros do Secretariado do PS, entre os quais se destaca Salgado Zenha.

1983

Em entrevista à revista americana "Newsweek", afirma que se o PS for governo não fará qualquer espécie de pacto com o PCP; em audiência com Ramalho Eanes, declara que o PS não fará "nem guerrilha institucional nem colagens abusivas ao Presidente da República". Pouco depois, apresenta publicamente o documento "Cem Medidas para Cem Dias" e é mandatado pela Comissão Política do PS para propor a Mota Pinto um "acordo político, parlamentar e governamental de legislatura", a celebrar entre o PS e o PSD, que será assinado. Desloca-se várias vezes ao estrangeiro, em ações políticas. Forma o IX Governo Constitucional, é eleito pela Assembleia da República membro do Conselho de Estado e convida os governantes dos PALOP para uma cimeira lusófona.

1984

No final de janeiro, em Genebra, lança um ultimato à CEE: ou Portugal entra na comunidade até junho ou estreitará os laços económicos com os EUA. Viaja até Moscovo para assistir ao funeral de Iúri Andropov, secretário-geral do Partido Comunista soviético. Depois vai a Roma, onde se encontra com o Papa João Paulo II. Daqui segue para os EUA, onde é recebido por Ronald Reagan e George Schultz... Ao longo do ano, ainda visita mais nove países, declara a sua preocupação com as atividades das FP-25, trata da situação económica do país com o FMI e exige ao PSD uma posição clara sobre a manutenção da coligação governamental, propondo uma redefinição do acordo entre os dois partidos.

Com o Papa João Paulo II e Ronald Reagan

1985

Em janeiro, Mário Soares em Lisboa e François Mitterrand em Paris participam numa videoconferência, integrada no seminário "Informação Face às Novas Tecnologias". Em junho, no dia 12, assina o Tratado de Adesão de Portugal à CEE, numa cerimónia pública no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa. No dia seguinte, apresenta a demissão de chefe do Governo ao Presidente da República. Passados alguns meses, ao lado de Almeida Santos, responsabiliza o PSD pela rutura da coligação com o PS. E anuncia a candidatura a Belém, com um manifesto apresentado por António Barreto.

1986

É agredido durante uma ação de campanha eleitoral na Marinha Grande. No dia 26 de agosto, obtém 25,4% dos votos e passa com Freitas do Amaral (46,3%) à segunda volta das presidenciais. Conquista o apoio de Cunhal e os votos dos comunistas, ganhando, em 16 de fevereiro, a Presidência, com 51,8%, e tornando-se o primeiro civil na cadeira de Belém desde a queda da I República, em 1926. Inaugura as Presidências Abertas, instalando-se em Guimarães e visitando todos os concelhos do distrito de Braga. No final do ano, assina o decreto de ratificação do tratado que institui o Ato Único Europeu.

Agressão na Marinha Grande

1987

É distinguido com o Prémio Robert Schuman, em Estrasburgo. Debate com o Governo o futuro de Macau, convocando por duas vezes o Conselho de Estado para este se pronunciar sobre as negociações entre Portugal e a República Popular da China. A Presidência Aberta será em Bragança, primeiro, depois em Beja, visitando todos os concelhos dos distritos, incluindo o de Évora. Veta o decreto-lei do Governo que altera o regime jurídico das relações coletivas de trabalho. E chama de novo o Conselho de Estado, de onde sai a decisão de dissolver a Assembleia da República e realizar eleições antecipadas. Em agosto, pede ao ex-primeiro-ministro Cavaco Silva para formar o XI Governo Constitucional. A terminar o ano, visita a URSS, discursa no Kremlin e encontra-se com Gorbatchov, Gromiko e Sakarov. É avô pela terceira vez, desta feita de Mário.

1988

Seguindo a prática iniciada no ano anterior, publica "Intervenções 2", uma complicação dos seus discursos. Discute a situação de Timor-Leste em Conselho de Estado e leva a Presidência Aberta até à Guarda. Em maio, janta com os reis de Espanha na sua casa do Vau, no Algarve. Veta os decretos da Assembleia da República sobre a transformação de empresas públicas em sociedades anónimas e sobre a autorização ao Governo para rever o regime jurídico da cessação do contrato individual de trabalho a termo e o regime processual da suspensão e redução da prestação de trabalho.

1989

O ano é marcado pelas deslocações que faz ao estrangeiro e por retribuir muitas das visitas. Junta à sua "coleção" de doutoramentos "honoris causa" o da Universidade da Sorbonne, dias depois de se deslocar à África do Sul para ver o filho João, ali hospitalizado em situação crítica após ter sofrido um acidente de aviação no sul de Angola, a 27 de setembro. Ainda em outubro, em Paris, discursa perante a Conferência Geral da UNESCO. Quase no fim do ano, vai a Praga participar na tomada de posse do recém-eleito Presidente Vaclav Havel, a quem oferece um almoço na embaixada de Portugal na Checoslováquia, que entrou para a História como o primeiro ato oficial do novo chefe de Estado.

1990

"Está-se a viver uma revolução nas relações entre Espanha e Portugal", afirma em entrevista à revista espanhola "Cambio 16", logo no início deste ano em que desenvolverá grande atividade internacional. Por cá, dará mais três entrevistas - uma ao jornal "Público", marcando os quatro anos como Presidente, na qual afirma ter, à data, "uma autoridade que não tinha em 1986"; outra ao "Diário", dizendo considerar-se "um homem de liberdade e não de poder"; e a última ao "Expresso", afirmando: "O desejo de igualdade continua a ser atual".

É também o ano em que condecora a fadista Amália Rodrigues, após assistir ao espectáculo dos 50 anos de carreira da artista. E "ganha" em Itália e no Brasil mais três doutoramentos "honoris causa", desta feita pelas universidades de Turim, do Estado de São Paulo e do Estado do Rio de Janeiro.

Com Amália Rodrigues

1991

Cria e torna-se presidente de uma fundação com o seu nome. É distinguido com o Grande Colar da Ordem Militar Torre e Espada, do Valor Lealdade e Mérito. E é reeleito Presidente da República, com 70,4% dos votos. Por altura da Guerra do Golfo, dirige uma mensagem aos portugueses, justificando "a necessária força das armas". Veta o Estatuto Político-Administrativo da Madeira. E escreve vários textos para órgãos de informação: "Os novos ventos da História",  "Francisco Pinto Balsemão". "Álvaro Cunhal", "Rui Grácio" e "O meu quadro preferido", no jornal espanhol "El Mundo". Marca, promovendo um jantar no Palácio de Queluz das delegações do MPLA e UNITA, a assinatura do Acordo de Paz para Angola. Encontra-se com o Papa João Paulo II, quando este visita Portugal e, no final do ano, há de receber o Núncio Apostólico para lhe entregar uma carta dirigida sobre o massacre de Dili, em que morreram mais de 200 pessoas vítimas de militares indonésios. Discursará na homenagem a Andrei Sahkarov, em Moscovo. E dará posse ao Governador de Macau, Rocha Vieira, o último governador português do território que será devolvido à China.

1992

Assume a primeira presidência portuguesa do Conselho das Comunidades Europeias, que decorrerá entre 1 de janeiro e 30 de junho, sob o lema "Rumo à União Europeia". Logo em janeiro, vai aos EUA encerrar a exposição de arte CIRCA-1492, assistir à sessão de abertura da Assembleia-geral da Organização dos Estados Americanos, e reunir-se com o Presidente George Bush, a quem procura sensibilizar para a questão de Timor-Leste. E vai à Índia numa visita oficial que ficará marcada pelas suas fotos de turbante na cabeça a andar de elefante. Convoca o Conselho de Estado, nomeado "de fresco", para analisar o Tratado da União Europeia, assinado em Maastrich e as suas implicações. Veta a chamada "lei dos coronéis", que prevê a redução dos quadros das Forças Armadas, através da reforma antecipada de alguns oficiais. Dirige uma mensagem ao país,querendo desmistificar a ideia de que existe uma "guerrilha institucional", entre o Presidente da República e o primeiro-ministro Cavaco Silva. Faz uma "Presidência Aberta" em Viana do Castelo, visitando, como se tornara costume, todos os concelhos do distrito. Em Lyon, França, dará uma conferência sobre "Resistência e Memória", integrada nas jornadas organizadas pelo Centro de História da Resistência e da Deportação. No final do ano, condecorará Eusébio. Numa entrevista ao "Jornal de Letras", dirá: "É a cultura que representa o espírito de uma Nação".

1993

Vai de novo em visita oficial aos EUA, sendo recebido pelo Presidente Clinton, e ao Reino Unido onde se encontra com a rainha Isabel II e o primeiro-ministro John Major. Publica, no "Diário de Notícias", o artigo "Parabéns, Dr. Cunhal!", por ocasião dos 80 anos deste político, e há de receber o líder comunista, pela segunda vez, em Belém. Antes, escrevera, para o jornal "Público", o texto "Salgado Zenha: o companheiro de tantos combates", a propósito da morte do também fundador do Partido Socialista com quem se zangara nos anos de 1980. Em Mérida, recebe a Medalha da Estremadura e o Prémio "Caravela de Prata", da Associação de Correspondentes da Imprensa Ibero-Americana. Entre os muitos estrangeiros que recebe todos os anos, destaque-se três apenas para mostrar a sua versatilidade: Yasser Arafat, presidente da Organização para a Libertação da Palestina, Uta Ballion, coordenadora do Greenpeace Internacional, e Jiang Zemin, Presidente da República Popular da China. No final do ano, presidirá ao lançamento do livro de Manuel Alegre "Sonetos do Obscuro Quê". Desta vez, a "Presidência Aberta" foi à Área Metropolitana de Lisboa.

1994

É entrevistado pelo político e diplomata Pierre Schori para integrar o livro "Líderes Mundiais". Recebe, no Palácio de Belém, sete jovens refugiados vindos de Timor. Vai a Paris, presidir à inauguração da 12.ª Expolangue, dedicada à Língua Portuguesa. De volta recebe o primeiro-ministro israelita Yitzhaq Rabin, uma das muitas personalidade estrangeiras que receberá na sua residência oficial.

Preside à abertura de "Lisboa 94 - Capital Europeia da Cultura". E concede uma entrevista ao jornal francês "Le Fígaro", na qual avisa que "uma nova ordem mundial vai nascer". Em maio, assiste na África do Sul à tomada de posse do Presidente Nelson Mandela.

Com Nelson Mandela

A "Presidência Aberta" é sobre o ambiente e qualidade de vida, o que considerava "uma prioridade absoluta". Esta é uma ínfima parte do que fez no ano em que se tornou cidadão honorário do Estado do Paraná, no Brasil, "Chubbs Felowship" da Universidade de Yale, no Reino Unido, e é agraciado com o Grão-Colar da Ordem de S. João de Jerusalém.

1995

Entra no ano no Brasil, como convidado de honra, em casa do empresário brasileiro Roberto Marinho, no Rio de Janeiro, onde assistirá à tomada de posse de Fernando Henriques Cardoso, tal como já fizera quando Collor de Mello foi Presidente, e viajará pela Amazónia. Em Lisboa, preside ao encerramento do seminário "Os Direitos da Pessoa e a Comunicação Social", e defende a existência de uma autoridade independente, na figura de um provedor para os "media", que muitos viriam a adotar. No mês seguinte, fevereiro, escreve uma carta ao Tribunal Constitucional pondo em causa a decisão dos juízes sobre a Lei de Imprensa e pedindo a anulação do acórdão, o que o TC não satisfará. Promulga o decreto-lei de privatização da Portugal-Telecom e um novo Código Penal. Em entrevista ao "Público", no mês anterior à sua visita oficial ao maior país da Ásia oriental, dirá: "Ainda há um caminho estreito para a China se democratizar".

 

Num encontro promovido por ambientalistas, defende a suspensão dos trabalhos de construção da nova ponte sobre o Tejo, entre Sacavém e o Montijo. E nega ao primeiro-ministro uma remodelação governamental, com argumentos que Cavaco rebaterá, mas acatará. Será o ministro do Mar quem fará as despesas das criticas públicas, em nome dos sociais-democratas - Soares é acusado de estar a "tentar condicionar o voto livre dos portugueses" e "a usar os seus poderes institucionais contra o PSD". E dá a resposta em comunicado dizendo que Azevedo Soares emitiu "juízo de reprovação (sobre o Presidente) porventura enquadrável no tipo legal de crime de ofensa à honra do Presidente da República", facto que a Procuradoria-Geral da República investiga e arquiva.

A caminho da China

1996

Na mensagem de Ano Novo, à laia de despedida da Presidência, dirá: "Podem contar comigo, mas de política basta". Visita oficialmente Angola, São Tomé e Príncipe, Palestina. Em Leiria concretiza a sua última visita a um município, como Presidente da República, e cumpre o último ato oficial do seu mandato oferecendo um jantar, no restaurante Tavares Rico, em Lisboa, aos chefes de Estado estrangeiros presentes em Portugal para assistirem à investidura do novo Presidente Jorge Sampaio a 9 de março. E passa a integrar o Conselho de Estado.

 

Assiste, em Lisboa, à assinatura formal da Declaração Constitutiva da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e faz publicar no "Diário de Notícias", o texto sobre a CPLP "Um projecto para o século XXI". Dá a sua primeira aula na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, como professor convidado e sem auferir vencimento, debatendo o tema "Da guerra fria à Nova Ordem Mundial".  No final do ano, em entrevista no jornal "Público", afirma: "Sou talvez um místico que se desconhece"; em fevereiro dissera à revista "Visão": "Não quero atravancar".

1997

Vai, pela primeira vez, como membro eleito, a uma reunião de trabalho da Classe de Letras da Academia de Ciências de Lisboa. Representa a Comissão Mundial Independente para os Oceanos na conferência anual das Organizações Não Governamentais filiadas no Conselho da Europa. É eleito presidente do conselho de administração da Fundação Portugal/África, e presidente do movimento Europeu, sucedendo a Giscard D'Estaing e, ainda, presidente da comissão de acompanhamento que vai estudar a origem do ouro que entrou naquele Banco durante a II Guerra Mundial. E será uma das 150 figuras que constam do abaixo-assinado elaborado para defesa da arte no Metro de Lisboa. É distinguido em Roma com o Prémio da Paz, da Fundação Juntos pela Paz, e recebe o Prémio Carreira dos Globos de Ouro da SIC. É portador de uma mensagem do primeiro-ministro António Guterres para o Rei Hassan II de Marrocos. "Falta ao mundo o peso, a voz e a influência da Europa", dirá em entrevista ao jornal "Público".

1998

O polémico quadro de Júlio Pomar toma o seu lugar na Galeria dos Retratos do Palácio de Belém. Como presidente da Comissão Mundial Independente para os Oceanos participa na reunião de conselho de ministros a bordo da fragata Vasco da Gama, e, em Paris, numa conferência sobre os oceanos no quadro do Conselho da Europa. Em declarações ao "Expresso", afirma discordar "em absoluto" da proposta do primeiro-ministro inglês de dissolver a Internacional Socialista para criar uma nova entidade, de modo a incluir o Partido Democrata dos EUA, aliás, meses depois lançará a pergunta "Tony Blair será de esquerda?", numa entrevista ao jornal belga "La Libre Belgique".

 

Preside a uma reunião do Movimento Europeu em que é feito um apelo a um pacto constitucional para a criação de uma união política europeia. É empossado na presidência das comissões para as comemorações dos 50 anos da Aprovação da Declaração dos Direitos Humanos, e dos 500 Anos do Descobrimento do Brasil; e ainda para a de investigação sobre o ouro nazi, cujo relatório divulgará em 1999 com a conclusão de que Salazar não teve qualquer responsabilidade.

 

Lança dois livros "Dois Anos Depois", sobre e "O Mundo em Português. Um Diálogo", em co-autoria com  Lança no Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro (Brasil), o livro de sua autoria e de Fernando Henrique Cardoso. Vai à Argélia, à frente de uma missão da ONU, para "comprovar" se, ali, as instituições democráticas "funcionam normalmente". E, em Paris, recebe o Prémio Internacional Simão Bolívar, da UNESCO.

O quadro de Júlio Pomar

1999

Recebe, juntamente com seu filho, João Soares, uma delegação do movimento basco Herri Batasuna, presidida por Elena Beloki. Participa em Paris na apresentação do Manifesto 2000 da UNESCO. em Madrid, numa conferência, promovida pelo "The Economist" sobre o desafio do alargamento da União Europeia e a Agenda 2000.

 

Em 13 de junho é eleito deputado pelo Partido Socialista ao Parlamento Europeu, mas no final do ano admitirá abandonar o lugar antes do final dos cinco anos de mandato. Os 180 eurodeputados socialistas candidatam-no à presidência do PE, todavia, o cargo irá para a francesa Nicole Fontaine.

 

Participa em Genebra no lançamento de um apelo internacional em nome das vítimas de conflitos armados internacionais, assinalando o 50º aniversário da Convenção de Genebra. Neste ano, convida Vaclav Havel a passar uma temporada no Algarve para recuperar de uma intervenção cirúrgica. Vem de longe, a sua amizade  com o Presidente checoslovaco. Soares foi o único Presidente estrangeiro convidado para a tomada de posse e, nesse mesmo ano de 1989, juntamente com um grupo de estudantes, até oferecera ao recém eleito chefe de Estado um carro, para que dispensasse os de fabrico soviético.

2000

Abre as atividades do ano indo à segunda Conferência sobre Internacionalização, sob o tema "Fundamentos e Caminhos para Estar no Mundo", organizada pelo Fundo para a Internacionalização das Empresas Portuguesas. Faz uma comunicação na Academia das Ciências sobre o escritor Almeida Garret e afirma que... Manuel Alegre faz falta à Academia.

 

Publica, no jornal "Expresso", o artigo de opinião "UE e Direitos Humanos em Angola", onde afirma que este país "não pode ser considerado um Estado de direito". E leva a resposta: Hendrick Vaal Neto, ministro da Comunicação Social angolano, acusa Mário Soares e João Soares de terem "beneficiado do tráfico de diamantes feito pela UNITA de Jonas Savimbi". Todos os partidos com assento no Parlamento português, com exceção do PCP, condenam as acusações do Governo angolano. O assunto aquecerá com a carta do primeiro-ministro Guterres ao Presidente Eduardo dos Santos, considerando as palavras inaceitáveis e os angolanos a responderem que não pedirão desculpa. E irá ao rubro após a entrevista que concede à Antena 1 e a posterior publicação de um violento editorial do Jornal de Angola, órgão que passa por ser a voz do Governo. Até que o Presidente Jorge Sampaio apela às autoridades de Luanda para que acabem com os ataques a Soares pai e filho, classificando-os como "imputações de enorme gravidade, que revestem um caráter inaceitavelmente calunioso". Ainda haverá mais troca de acusações e outros apelos a favor do ex-Presidente surgirão, como o do Presidente Sarney, do Brasil, ou do Parlamento Europeu, ou o de Alberto João Jardim, na altura presidente do Governo regional da Madeira, que dirá: "Estou solidário apesar de Soares não gostar de mim".

 

A meio do ano, criticará o seu partido, no Governo, afirmando ser "óbvio um certo desnorte do Partido Socialista", defenderá uma constituição europeia e será designado observador especial para o conflito do Médio Oriente. No final do ano, será galardoado pelo Conselho da Europa dado o seu envolvimento em defesa dos direitos humanos.

2001

No seu papel de eurodeputado, defende a proibição de utilização de urânio empobrecido nas munições e faz críticas ao Governo português pela sua participação na guerra do Kosovo e classificou de "hipócrita" a política de direitos humanos. Na sua opinião, "houve mortes de soldados e coincidências a mais".  A sua voz, segundo uma sondagem do "Diário de Notícias", é a mais respeitada de entre os políticos portugueses sem responsabilidades governativas ou partidárias; em segundo lugar encontra-se Ramalho Eanes. Sobre este, dirá ao "Expresso" opor-se à ideia do também antigo Presidente de realizar um referendo sobre a introdução da prisão perpétua em Portugal. No entretanto, subscreve um apelo conjunto à urgente ratificação do Estatuto de Roma, que institui o Tribunal Penal Internacional, e, ao ver aprovado o seu relatório sobre as relações da União Europeia com Macau pelo Parlamento Europeu, apela à UE para que não se "desinteresse de Macau, uma vez que o que se irá passar no futuro da Região administrativa Especial depende em muito da vigilância da União». Por outro lado, mas ainda no PE, apelará à França  para que não deixe impune o chefe militar da FLEC-Renovada, Costa Nkusoo, que, em Paris, declarou ir capturar mais portugueses em Cabinda - "Não é possível fazer declarações destas num país livre como a França e continuar em liberdade", diz. E abre novo conflito com Angola. Em entrevista ao "Diário de Notícias", sobre o 11 de Setembro nos EUA, diz terem-se registado "falhas inacreditáveis na segurança", mas também acrescentará (no ano seguinte) que se foi "longe demais" após esses atentados.

No lançamento do seu livro "Português e Europeu"

2002

Eleito presidente da delegação do Parlamento Europeu para as relações com Israel. Em março, diz ao jornal espanhol "El País" que os ventos na União Europeia sopram para a direita. Faz uma viagem de dez dias ao Irão que resulta num artigo no Expresso, intitulado "O Eixo do Mal".

De volta a Portugal dá o seu apoio a Ferro Rodrigues para a liderança do PS, participa no lançamento da sua ex-assessora Estrela Serrano sobre "As Presidências Abertas de Mário Soares".

Com Maria Barroso e Ferro Rodrigues

Declara em Estrasburgo que Israel "deixou de ser um Estado de Direito" e acusa as suas forças armadas de atuarem como "um verdadeiro exército colonial" e não respeitarem a Convenção de Genebra; em Lisboa, participa no Cordão Humano pela Palestina. "O Mundo está a mudar e a entrar numa crise profunda", afirma em entrevista ao "Diário de Notícias", e ao "Diário Económico" dirá mais tarde: "A UE devia ter um papel mais ativo e inteligente no combate ao terrorismo".

 

Em maio, esteve em Timor-Leste a assistir à cerimónia da declaração de independência do país e, dois meses depois, assina com Xanana Gusmão um protocolo de cooperação para a preservação, reprodução digital e fotográfica, classificação e disponibilização de documentação referentes à luta da Resistência e do Povo de Timor-Leste pela Fundação Mário Soares.

 

Já a acabar o ano, demite-se da presidência da delegação do Parlamento Europeu (PE) para as relações com Israel "por razões de consciência", recebendo uma carta de agradecimento de Yasser Arafat, "em nome do Povo Palestiniano, dos seus dirigentes, por essa "decisão corajosa". E anuncia, durante a iniciativa "Encontros Porto 2002", não estar disposto a candidatar-se nem a um novo mandato no Parlamento Europeu nem a qualquer outro cargo político. "As pessoas têm um caminho, percorrem-no e cumprem as coisas que têm que cumprir", disse, acrescentando estar na hora de se dedicar a projetos pessoais.

2003

É o primeiro subscritor de um documento crítico à intervenção militar no Iraque, o manifesto - Pela Paz, Contra a Guerra - que rejeita a participação de Portugal na "preparação de ações contra países terceiros, sem a autorização prévia da Assembleia da República e sem mandato expresso do Conselho de Segurança das Nações Unidas". Em entrevista ao jornal brasileiro "Valor Económico" classifica o líder iraquiano Saddam Hussein como um "ser odioso", mas condena uma ação militar unilateral dos EUA. E afirma, no Parlamento Europeu, que o Presidente norte-americano Bush "quer a guerra a qualquer preço" e que a nova doutrina preventiva de Washington serve apenas para "defesa dos interesses estratégicos" dos Estados Unidos  e "é insustentável".

 

Em fevereiro, está na rua em Lisboa, com mais 80 mil pessoas, a favor da paz no Iraque. Dá, na Universidade Católica, a aula "O político e os 'media': um testemunho pessoal", e participa, na aula magna da Reitoria de Lisboa, num comício contra a guerra do Iraque. Em entrevista à Antena 1, sugere a transferência das Nações Unidas de Nova Iorque para Genebra, já que os embaixadores na ONU se queixarem de terem os telefones sob escuta. No mês de março, volta à rua para integrar a manifestação na cidade de Lisboa, em defesa da paz, em defesa da democracia, em defesa da liberdade, em defesa do direito internacional, contra o ataque norte-americano ao Iraque. Entre outras polémicas que vai acendendo, classifica de "instâncias obsoletas", o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio.

2004

É convidado por Ferro Rodrigues para se manter como número um da lista do PS às eleições europeias, mas dirá não. "Entendo que, com a minha idade, não devo continuar a submeter-me a esta verdadeira tortura que é fazer viagens quase todas as semanas para Bruxelas e Estrasburgo".

 

Em Braga, num debate sobre a Europa organizado pelo PS, afirma que o Governo de Durão Barroso é "o mais reacionário desde o 25 de Abril". E é o presidente do CDS, Paulo Portas, com quem já polemizara no ano anterior, quem responde: "Eu tenho tanto que fazer que francamente não tenho muito tempo para me preocupar com o doutor Mário Soares. Mas ainda me lembro de, quando ele era primeiro-ministro, dos salários em atraso, da fome que havia no país e das cargas policiais que ele mandava dar". Um mês depois, Portas desafia-o para um debate ideológico, televisivo, "à velha maneira", para "discutir o atlantismo, Iraque, globalização, défice, direitos sociais, Constituição, competitividade, tudo". A resposta é: "Se eu fosse uma pessoa pretensiosa - que não sou - dir-vos-ia: o dr. Paulo Portas cresça e apareça. Mas eu não vou dizer uma coisa dessas, porque não tem sentido".

 

Depois, subscreve, ao lado de Federico Mayor e Noam Chomski, e de outras personalidades mundiais, um abaixo-assinado em nome da Paz, no qual se acusa a Administração Bush de fomentar grande parte dos conflitos. E, em Coimbra, nas jornadas de teologia sobre Cristianismo e Construção da Europa, em que participa como "laico e agnóstico", relaciona "a profunda crise de valores que se vive na Europa" com lideranças europeias "hesitantes, de vistas curtas e assentes no puro eleitoralismo". Espantando fantasmas, numa entrevista ao "Semanário" afirma: "Tenho muito orgulho na descolonização". E faz uma "visita histórica" à Marinha Grande, onde um dia, durante a campanha eleitoral, fora agredido na via pública.

2005

Na RTP, afirma que "existe muita corrupção no poder local". No "El Corte Inglês", em Lisboa, lança o seu livro "A Crise. E Agora?", com apresentação de Vasco Vieira de Almeida. E com o ex-ministro de Salazar Adriano Moreira, torna pública uma petição pública para a adesão de Cabo Verde à União Europeia, sublinhando que o alargamento da UE não pode ignorar a dimensão atlântica do continente. No programa "Sociedade Aberta" da SIC Notícias, afirma estar contra a realização de um referendo sobre a despenalização do aborto, sustentando que a prioridade política deve ser dada à consulta popular sobre a Constituição Europeia. E volta a dizer, desta feita em Maputo, Moçambique, que não se sente arrependido do processo de descolonização e que nada lhe pesa na consciência.

 

Em Lagos, após a notícia da intenção de Manuel Alegre se candidatar à Presidência da República, afirma que se exclui como candidato: "Não tem razão de ser eu falar de uma coisa que desconheço". E frisa que o apoiará. Mas o primeiro-ministro socialista José Sócrates vem a terreiro defender a sua candidatura e Soares diz que este apoio "tem um peso inegável" na reflexão estava a fazer.

Acumulam-se os incentivos, em setembro a Comissão Nacional do PS aprova o apoio formal à candidatura presidencial de Mário Soares, em outubro, apresenta o seu manifesto de candidatura às eleições presidenciais. É agredido por um ex-combatente da guerra colonial, em Barcelos, durante uma ação de rua da pré-campanha, sendo atingido com um murro num braço, mas logo afastado do local pelos seus apoiantes.

Candidato para as presidenciais de 2006

2006

Decide para espanto geral, "regressar do seu confortável retiro para escrever mais um capítulo da sua monumental história política. Em má hora o fez, porque ver o seu brilhante curriculum manchado por uma dupla derrota (nas Presidenciais): uma, que lhe foi infligida pelo seu principal adversário político do pós-25 de Abril (Cavaco Silva; a outra, imposta pela 'candidatura rebelde' de Manuel Alegre, um homem que foi seu amigo e aliado durante mais de três décadas", escreve o Expresso que escolheu Cavaco Silva para figura do ano. Em novembro, lançará o livro "Un Diálogo Ibérico en el Marco Europeu e Mundial", em coautoria com Federico Mayor Zaragoza.

Com José Sócrates

2007

Soares sempre disse que a vida de um político é feita de vitórias e de derrotas. Após ter sido vencido em 2006 na corrida à Presidência da República, segue normalmente a sua marcha. E defende, ao contrário do que antes pensara, que o Tratado de Lisboa deve ser ratificado pela Assembleia da República e não por referendo. Preside ao júri do prémio Félix Houphouët-Boigny, da UNESCO. O "Inimigo Público" dedica-lhe uma notícia: "O programa da RTP 'O caminho faz-se caminhando' vai usar o mesmo software das transmissões de futebol para, no final, poder informar quantos quilómetros é que Mário Soares palmilhou. As distâncias percorridas também são importantes para apurar o cachet de Soares que, segundo o IP apurou, anda com um taxímetro no bolso do casaco e ganhou espírito de taxista. Talvez por isso, há uma semana, levou Clara Ferreira Alves do Campo Grande a Nafarros, via Paris, "para cortar caminho". Foram doze, os programas transmitidos, doze conversas com a jornalista Clara Ferreira Alves.

2008

Falando no lançamento do novo formato do "Courrier Internacional", considera tratar-se de um ano de viragem política e económica na Europa e no mundo, com reflexos em Portugal, um país "que está bem, apesar de alguns mal-estares". Defendeu que, ganhassem os democratas ou os republicanos, os EUA tinham de mudar a sua política interna e externa "sob pena de o Ocidente entrar em profunda decadência". E a União Europeia deveria fazer reformas e tornar-se "um modelo para o resto do mundo". Sobre Portugal, disse, sem mais pormenores, "estar bem, apesar de alguns mal-estares", afirmando-se "a favor das reformas progressistas", criticou a entrega de serviços ministeriais "a advogados e economistas pagos a peso de ouro".

2009

Nomeado patrono do International Ocean Institute. Convidado a pronunciar-se sobre Portugal, juntamente com outros dois antigos presidentes da República (Ramalho Eanes e Jorge Sampaio), no último dia do ano anterior, vaticina ser este um ano "muito mais dificil" e diz temer que o país fique ingovernável, devido ao facto de estar a aumentar cada vez mais o número de desempregados e de estes poderem vir a encher as ruas. "Eu sei que o primeiro-ministro deu a entender que as coisas vão melhorar em 2009. Sob certo aspecto ele tem razão, mas o grande problema é o desemprego e a falência das grandes empresas e das pequenas empresas, pequenas e médias empresas. Isso parece-me a mim gravíssimo", afirmara. No primeiro mês do ano, em entrevista à SIC, mostra a sua boa forma lançando criticas políticas. Em setembro, deixa-se filmar a votar para as eleições legislativas mostrando-se confiante na escolha dos portugueses que conforme o seu desejo: O PS ganhou e José Sócrates continuou primeiro-ministro, sê-lo-á até 2011.

2010

A Câmara da Figueira da Foz atribui-lhe a "Chave de Honra" da cidade. É distinguido com o doutoramento "honoris causa", pela Universidade de Lisboa, no decorrer das comemorações do centenário da instituição de ensino. Na Feira do Livro, em Lisboa, antes de iniciar uma sessão de autógrafos, interrogado sobre a decisão do líder da oposição e presidente do PSD de viabilizar as medidas de austeridade do Governo de Sócrates afirmou para espanto de alguns: "Conheço Pedro Passos Coelho e considero-o um homem muito sensato, lúcido e com um grande sentido de Estado. E o que os políticos precisam de ter nesta altura é um grande sentido de Estado, defendendo sempre o interesse nacional, porque nesta altura é Portugal e a Europa que estão em causa". Na sua opinião, as medidas "são absolutamente necessárias. Sem elas Portugal poderia ficar numa situação difícil e, até pior, sem meios para poder pagar aos seus funcionários".

2011

Lança o livro "Um Político Assume-se". Escreveu o próprio no prefácio: "Vivi e acompanhei intensamente quase todo o contraditório e complexo século XX e este começo incerto e tão problemático do atual. É uma reflexão sobre esse longo e conturbado caminho, com altos e baixos, acertos e desacertos, vitórias e derrotas, ao serviço do Povo Português, a que me honro pertencer, que vos ofereço neste livro: uma espécie de autobiografia política e ideológica, orientada por valores humanistas e princípios éticos e políticos, que nunca abandonei".

2012

E num só dia, a 9 de setembro, é por duas vezes notícia. Pelas 15h, é apanhado na fotografia do radar a viajar na A8 a 199 km/h e, mais tarde, faz declarações polémicas no debate "Portugal, a crise e a importância da CPLP", na Universidade Católica do Porto. No primeiro caso, ao ser mandado parar pela GNR de Leiria terá respondido que seria "o Estado a pagar a multa"; no Porto, afirmará ser preciso manter a coesão nacional:  "É que as pessoas estão a ficar desesperadas, há pessoas a passarem fome. Isto não é literatura, é a verdade". E remata: "Claro que há um défice terrível. Nós estamos rodeados de políticos medíocres".

2013

No dia 12 de janeiro, é internado no Hospital da Luz, em "estado confusional". Trata-se de uma encefalite, infeção aguda no cérebro que terá sido provocada pelo vírus da gripe. Dez dias depois, tem alta. Antes, tinha feito algumas afirmações polémicas, a seu estilo, na conferência comemorativa dos 40 anos do jornal Expresso. "Os mercados não podem ser senhores dos Estados, têm que ser dominados pelos Estados e seguir regras", diz, acrescentando: "A globalização tem que ter regras, tem que ser regularizada. Isso é o fundamental e se não for assim nós vamos ter uns anos em que vamos ter grandes sarilhos, as democracias vão entrar em descrédito, em  muitos sítios já estão, e vamos ter porventura uma terceira guerra mundial".

 

E é eleito personalidade do ano pelos representantes da imprensa estrangeira em Portugal.

2014

Numa grande entrevista ao site "DW", faz um balanço dos 40 anos de liberdade em Portugal e volta a sublinhar não se arrepender da descolonização. Foi a possível já que "queria chegar e ter a descolonização para parar com as guerras. E, de facto, é preciso ver que, quando cheguei, não sabia o que se ia passar. Logo no primeiro dia, o general António de Spínola [primeiro Presidente português após a revolução] acreditava que era possível manter uma espécie de acordo e fazer a paz com as colónias, ficando elas colónias. Eu disse-lhe logo que isso não tinha sentido nenhum e que tínhamos de dar a independência às colónias – sem isso nada feito. Por isso é que eu digo, descolonizar em primeiro lugar, não havia democracia possível sem isso". A dada altura, perguntam-lhe "Olhando para trás e para os dias de hoje, Portugal tornou-se o país por que lutou, por que foi preso e por que esteve no exílio?" e a resposta é: "Depois do 25 de Abril, Portugal foi um país extraordinário. Nós fizemos tudo. Entrámos na União Europeia, um grande gesto. Desenvolvemos uma política social imensa. Tivemos um serviço nacional de saúde gratuito. Houve respeito pelos sindicatos de todas as naturezas. E o diálogo social entre sindicatos e empresas para fazermos a concertação social. Tudo isso se fez. Fizemos um país que, até à crise, era um país extraordinário. Agora, há uma crise social? Há! Há uma crise política? Há! Há uma crise moral? Há! Sobretudo moral e ética. Há uma crise sobre todos os aspetos atualmente. E isso está a destruir Portugal ou está a tentar destruir Portugal".

2015

Publica, apesar dos seus 91 anos, diversos artigos no "Diário de Notícias", fazendo desde criticas ao líder do PSD e primeiro-ministro Passos Coelho até alertas para problemas ambientais.

2016

Recebe a chave da cidade de Lisboa, a mais alta distinção atribuída pelo município a personalidades com relevância nacional e internacional.

 

É internado, dia 13 de dezembro, no Hospital da Cruz Vermelha, de onde já não sairá com vida.

Fotos arquivo Expresso, arquivo Impresa e Gesco. Dados recolhidos na Gesco.